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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

ALZHEIMER: COMO LIDAR COM QUEM TEM A DOENÇA E QUAIS OS FATORES DE RISCO?

PROGRAMA BEM-ESTAR
Não há uma definição quanto às causas do Alzheimer. A doença afeta o funcionamento do cérebro de modo lento e progressivo, caracterizada pelo comprometimento de duas ou mais funções.

 Alzheimer: como lidar com quem tem a doença e quais os fatores de risco?

Alzheimer é uma doença que atinge um milhão de brasileiros. Normalmente, se manifesta com pequenos esquecimentos, depois surge a dificuldade em articular palavras, problemas na execução de atividades do dia a dia e evolui para alterações de comportamento.

Para falar sobre o assunto, o Bem Estar convidou nesta quinta-feira (28) o neurologista e diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer Rodrigo Schultz e a geriatra Maisa Kairalla. Eles explicaram a importância de um exame que pode detectar o problema e amenizar os sintomas. 

A degeneração do cérebro começa, em média, aos 50 anos. Casos de Alzheimer precoce, antes dos 60 anos, tem maior ligação genética. Quando acontece mais tarde, acima dos 80 anos, tem como causa principal a própria idade. Por isso, cuidar do cérebro e do corpo ajuda a postergar as doenças degenerativas. 

Exame que detecta genes responsáveis pelo Alzheimer não está disponível na rede pública Não há uma definição quanto às causas do Alzheimer. A doença afeta o funcionamento do cérebro de modo lento e progressivo, caracterizada pelo comprometimento de duas ou mais funções como: memória, linguagem, atenção, raciocínio lógico, julgamento, planejamento, graves o suficiente para interferir nas atividades da vida diária da pessoa. 
Para evitar que o cérebro se ‘aposente’ é interessante adotar algumas estratégias: praticar atividade física; estimular a leitura; jogos como sudoku, palavras cruzadas. É muito importante exercitar o cérebro e socializar. O diagnóstico precoce é o melhor aliado para prolongar a qualidade de vida do paciente. 
Como lidar com quem tem Alzheimer?
A família precisa ter informação, ler muito a respeito, pois os cuidados são intensos. O tratamento precisa ser individualizado e a família precisa ser paciente, entender que o comportamento da pessoa com Alzheimer independe da vontade dela. Quem cuida precisa estar bem, pois o desgaste é grande.
Os idosos são suscetíveis a distúrbios no humor, por isso podem ficar alterados e acabam irritando os familiares. 

É importante frisar que aquela pessoa não tem culpa de não se lembrar de nada ou de ter aquele comportamento, mas que ela já foi alguém muito produtiva e importante na sua vida. 
Entenda a influência da genética no Alzheimer e como prevenir a doença
Fatores de risco
- A idade é o mais reconhecido fator de risco;
- Estudos variados indicam que a influência genética pode representar de 1% a 5% dos casos;
- Alzheimer afeta mais a mulher do que o homem;
- Estilo de vida: hábitos como beber em excesso, fumar, dieta rica em gordura, estresse, sedentarismo podem ser ruins para a saúde em geral, especialmente a do cérebro.
A demência da doença de Alzheimer pode se apresentar em três fases: inicial (lapsos de memória para acontecimentos recentes), moderada (queixas se acentuam, assim como os demais domínios) e grave (agravamento dos sintomas, incapacidade de realizar as atividades da vida diária sozinho, etc). 

(https://g1.globo.com/bemestar/noticia/alzheimer-como-lidar-com-quem-tem-a-doenca-e-quais-os-fatores-de-risco.ghtml)
 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ESSE RESTAURANTE SÓ TEM GARÇONS COM ALZHEIMER!



O que define um bom restaurante, além da comida, é também o atendimento, que deve ser rápido e eficiente. Imagina fazer um pedido e simplesmente ser esquecido, ou receber algo errado. Até estraga a noite, né? Mas… E se o ponto alto do restaurante for justamente esses “erros”?

Um restaurante em Tokyo – é claro – aberto há pouco tempo, apostou exatamente nesses erros para atrair a clientela

 


Ele se chama “O Restaurante dos Pedidos Errados”, e esse nome serve perfeitamente…

 


… Afinal, eles só contratam garçons com demência e Alzheimer


A intenção é mesmo receber pedidos errados e ter tudo trocado


Infelizmente, foi um experimento e ficou aberto de 2 a 4 de junho (2017)


A ideia surgiu para criar compreensão e paciência em relação às pessoas que sofrem desses males


A blogueira Mizuho Kudo foi ao restaurante e escreveu sobre sua experiência

Ela pediu hambúrgueres, mas recebeu pastéis

 

O restaurante fechou, mas os organizadores pretendem reabrir em setembro, que é o mês de conscientização mundial do Alzheimer

O que achou da ideia? Você frequentaria um restaurante assim? Não esqueça de deixar sua opinião nos comentários.
( https://www.tudointeressante.com.br/2017/06/restaurante-garcons-alzheimer.html)

DOENÇA DE ALZHEIMER - SETEMBRO MÊS DE CONSCIENTIZAÇÃO



Setembro é o mês mundial da Doença de Alzheimer. Serão promovidas ações em todo o mundo, especialmente no dia 21, o Dia Mundial da Conscientização sobre a Doença de Alzheimer, com o objetivo de destacar a importância da detecção precoce da doença.

O tema da campanha mundial de conscientização sobre o Alzheimer neste ano é Lembre-se de mim (Remember Me, na versão original). Foi escolhido porque menos de 50% dos portadores de Alzheimer recebem esse diagnóstico e têm acesso aos tratamentos disponíveis.

Doença de Alzheimer-setembro-campanha 

Segundo o neurologista Roger Taussig Soares, o Alzheimer é uma doença degenerativa do cérebro, decorrente do acúmulo de proteínas como o amiloide beta e a proteína tau, que formam aglomerados proteicos tóxicos para as células cerebrais, ocasionando sua morte. “Os sintomas são decorrentes da dificuldade de comunicação nas redes cerebrais e da morte neuronal”, explica.

Quanto mais idosa a população, maior o número de pessoas com a Doença de Alzheimer. Isso significa que há cada vez mais doentes no Brasil, por conta do aumento da expectativa de vida. “Atualmente estima-se que existem cerca de 1,3 milhão de indivíduos acometidos em nosso país. No mundo, considera-se que mais de 40 milhões de pessoas têm a patologia”, adverte o neurologista.

Doença de Alzheimer-setembro-campanha

Doença de Alzheimer: novo remédio 

Soares instrui que o diagnóstico antecipado pode auxiliar no tratamento da doença, na orientação dos cuidadores e no planejamento para o futuro. “Pessoas diagnosticadas na fase inicial da doença são capazes de tomar decisões de vida, inclusive para realizar sonhos que ficaram no passado”, preconiza.

Além disso, o diagnóstico entre os vários tipos de demência é mais fácil no início da doença. Permite diferenciar o Alzheimer de outras formas de demência. Inclusive de algumas que são potencialmente reversíveis, como a deficiência de vitamina B12 ou a hidrocefalia de pressão normal.

Doença de Alzheimer-setembro-campanha 

Há vários estudos científicos em andamento com medicamentos que poderão atuar no desenvolvimento da doença. O neurologista conta que a comunidade médica aguarda para outubro deste ano o resultado dos testes com uma droga denominada Inteperdine. Ela age sobre os receptores de serotonina, uma forma inovadora de atacar a doença de Alzheimer.

“Esperamos que as novas pesquisas resultem em tratamento eficazes que retardem o aparecimento e a evolução da doença; mas nosso maior objetivo e esperança é encontrar meios efetivos para prevenção”, conclui.
(https://www.clubedascomadres.com.br/bem-estar/saude/doenca-de-alzheimer-campanha-setembro/)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

PACIENTE COM ALZHEIMER PRECISA MANTER VÍNCULOS AFETIVOS


Eles podem esquecer rapidamente… Mas uma visita a um paciente com Alzheimer vai deixá-lo com um sentimento permanente de felicidade. Esta é a descoberta de um estudo realizado por Justin Feinstein, da Universidade de Iowa, publicado na Proceedings Of The National Academy Of Sciences, que pode ter implicações importantes para pessoas com a doença de Alzheimer e seus familiares.

Segundo o autor do estudo, muitas vezes, os membros da família e os amigos mais próximos se perguntam se vale a pena fazer uma visita ou um telefonema para uma pessoa próxima com demência, pois o teor da conversa é esquecido rapidamente. O que Feinstein descobriu é que a lembrança da visita é apagada da mente, mas os sentimentos “bons e quentes” provocados pela visita fazem o portador de Alzheimer sentir que vale a pena viver.

Para chegar a tal conclusão, Feinstein e sua equipe estudaram as reações de cinco pacientes neurológicos com danos no hipocampo, uma parte do cérebro crítica para a transferência de memórias de curto prazo para longo prazo.  Danos no hipocampo provocam um tipo de amnésia que é frequentemente um sinal inicial de Alzheimer e pode ser também resultado de um acidente vascular cerebral ou de epilepsia.

Os pacientes foram expostos a clipes de 20 minutos de filmes, intensamente emocionais: alguns felizes, outros tristes. Ao assistirem às cenas, os pacientes demonstraram emoções apropriadas e condizentes com o que estavam vendo, assim, ora havia risos, ora lágrimas. Embora os participantes do estudo logo tivessem esquecido o que tinham visto, as perguntas sobre seus sentimentos revelaram que as emoções provocadas pelos clipes ficaram retidas por muito mais tempo.

Segundo Justin Feinstein, muitas vezes, a negligência afetiva do cuidador e dos familiares pode deixar o paciente triste, frustrado e solitário, mesmo que ele não saiba exatamente o  porquê.  “A pesquisa é uma prova clara de que as razões para tratar os pacientes com Alzheimer com respeito e dignidade vão além da simples moral humana”, afirma o neurologista, Willian Rezende do Carmo, CRM-SP 160.140.

Afetividade faz parte do tratamento
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que as interações sociais regulares reduzem o risco de desenvolvimento de demência. “Esta nova pesquisa sugere que é preciso começar a definir um novo padrão de cuidados para pacientes com distúrbios de memória. O estudo confirma uma observação da nossa prática clínica: indivíduos com demência que vivem em ambientes tranquilos tendem a ter comportamentos menos inadequados e agressivos”, defende o médico.

O neurologista reforça que, embora, muitas vezes, o doente com Alzheimer não reconheça quem o visita, o contato humano é muito importante para ele. “No entanto, como em qualquer tipo de demência, os doentes com Alzheimer apresentam alterações comportamentais, principalmente na interação com outras pessoas. Portanto, é muito importante se preparar para visitar o familiar ou o amigo com Alzheimer, buscando saber mais sobre a doença e informando-se sobre que atitudes tomar durante a visita”, aconselha Willian do Carmo.

A seguir, o neurologista enumera algumas dicas úteis na preparação de uma visita ao doente com Alzheimer. As dicas foram retiradas do  Blog Familiares e Cuidadores de Doentes de Alzheimer, mantido por Alunos de Mestrado em Biomedicina Molecular da Universidade de Aveiro, Portugal:
  • Um aspecto importante é informar-se junto aos familiares e/ou cuidadores  qual o melhor momento do dia para fazer a visita;
  • O modo como você fala com o doente com Alzheimer e a linguagem corporal também são essenciais. Durante a visita, você deve manter-se calmo, evitando elevar o tom de voz, falando lentamente e de forma clara. Se o doente aparentar não compreender bem o que você diz, ao invés de repetir, diga o mesmo, mas com palavras diferentes e frases mais curtas;
  • Evite fazer perguntas ou então faça as que podem ser respondidas com “sim” ou “não”. Se o doente ficar frustrado por não conseguir responder, não insista;
  • Fale normalmente com o doente e nunca como se ele fosse uma criança. Estabeleça contato visual com o doente e chame-o pelo nome, quando quiser chamar a sua atenção;
  • É essencial respeitar o espaço do doente, evitando chegar muito perto deste;
  • Se durante a visita, o doente parecer não o reconhecer, relembre-o quem você é, e, acima de tudo, nunca considere pessoal o fato do doente não o reconhecer, ser indelicado e até mesmo responder com raiva;
  • Não discuta com o doente caso ele se mostre muito confuso. Em vez disso, tente distraí-lo, conduzindo a conversa para outros temas;
  • Tente não usar frases como  “Você se lembra de…”. Ao invés disso, leve consigo objetos – como, por exemplo, fotografias – que possam suscitar memórias no doente e sobre os quais vocês possam falar;
  • Não se preocupe se a conversa com o doente não fizer muito sentido, nem corresponder à verdade;
  • Se o doente começar a ficar muito agitado, despeça-se e termine a visita. Por vezes, estes doentes não toleram mais do que 15 a 20 minutos de visita.
( https://www.willianrezende.com.br/paciente-com-alzheimer-precisa-manter-vinculos-afetivos/)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

REFLEXÃO SOBRE O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA PÁSCOA

Fazer Páscoa em si mesmo é cultivar a subjetividade. sugerem os místicos. Desnudar-se de ilusões egocêntricas, jejuar os sentidos, orar e meditar para poder contemplar

Fazer Páscoa em si mesmo é cultivar a subjetividade. sugerem os místicos. Desnudar-se de ilusões egocêntricas, jejuar os sentidos, orar e meditar para poder contemplar (Frei Betto).

Uma das características da pós-modernidade é a redução da cultura a mero entretenimento e a exacerbação dos sentidos em detrimento da razão e do espírito. Para estimular o consumismo, utilizam-se como isca recursos capazes de nos fazer sentir mais e pensar menos. Isso vale para a publicidade, certos programas televisivos e até rituais religiosos.

Dissemina-se uma cultura centrada no epidérmico, na qual há mais estética que ética, nádegas que cabeças, urros que melodias, ambições que princípios, devaneios que utopias. Tudo é aqui e agora, a ser devorado por olhos e ouvidos, o corpo entregue a um frenesi de sensações que faz do prazer e do sexo simulacros da felicidade e do amor.

Seres relacionais e racionais, como acentuam os filósofos desde Sócrates, somos agora reduzidos a seres extrofiados, revirados para fora, estranhos a nós próprios, como lamentava Kierkegaard, pois nossa autoestima passa a depender do que vem de fora – da gula e da antropofagia visual aos arremedos de fama, fortuna e poder.

Páscoa significa travessia, passagem. Talvez uma das mais difíceis é a que nos faz percorrer o caminho entre a epiderme e a vida interior, não para dualizar polaridades, mas para resgatar a unidade. O budismo tibetano tem razão ao afirmar que, malgrado todo avanço científico e tecnológico, cada pessoa é ontologicamente a mesma desde que o símio tomou consciência de que o galho de árvore em sua mão poderia servir-lhe de arma de ataque e de defesa.

Aristóteles sintetizou-nos em esferas sensitiva, racional e espiritual, como unidade que exige equilíbrio. A exacerbação de uma resulta na atrofia das outras. Só a predominância do espiritual é capaz de imprimir sensatez “às loucas da casa”,como diria o poeta, evitando o sabor de náusea dos sentidos, descritos por Sartre, bem como o racionalismo que, ao contrário de Tomás de Aquino, julga equivocadamente que a razão é a suprema expressão da inteligência.

Fazer Páscoa em si mesmo é cultivar a subjetividade. “Beber do próprio poço” sugerem os místicos. Desnudar-se de ilusões egocêntricas, jejuar os sentidos, adequar a razão a seus limites, orar e meditar para poder contemplar.

Somos seres vocacionados à transcendência. Como dizia Hélio Pellegrino, uma samambaia desfruta de sua plenitude vegetal. Nós, não; escravos do desejo, temos buracos no corpo e na alma. É a “gula de Deus”, da qual falava Rimbaud.

Ao deixar de trilhar as veredas que conduzem ao Absoluto, corremos o risco de nos perder no acidentado terreno que cotidianiza o absurdo: iras e mágoas, inveja e competição, medo e, sobretudo, uma incômoda sensação de não saber exatamente o que fazer desse breve período de existência.

A Páscoa é precedida de morte que, emblematicamente, a tradição cristã qualifica de paixão, um ato de amor, de entrega, que faz refluir tudo aquilo que dispersa, aliena e ilude. Jesus no túmulo simboliza o silêncio, a volta ao mais íntimo de si mesmo, abraçar a solidão sem se sentir solitário. Ressuscitar, renascer na ousadia de assumir valores altruístas e empenhar-se para que a justiça seja o fundamento da paz.

Tudo que existe preexiste, subsiste e coexiste. É Universo, e não pluriverso. Comunhão e luz. Não é em vão que os orientais chamam o centro energético do nosso ser, lá onde se situa o coração, de plexo solar. O silêncio das galáxias no infinito é um convite para que se saiba fechar os olhos para ver melhor. E descobrir, no âmago de si, a presença amorosa de Deus, que impregna o lado avesso da pele e anseia fluir por todo o corpo, palavras e atos, de modo a fazer de nós seres vitalmente pascais, cuja existência coincida com a sua essência. (Fonte: Folha de São Paulo)
  http://www.50emais.com.br/

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O PASSADO ESFARINHADO

 

 " Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo" 
(George Santavana)

" A nossa duração não é apenas um instante a seguir ao outro; se fosse, nunca haveria mais nada além do presente - nenhum prolongamento do passado na atualidade, nenhuma evolução, nenhuma duração concreta. A duração é o progresso contínuo do passado que morde o futuro e vai inchando à medida que avança. E, como o passado cresce sem parar, não há nenhum limite à sua preservação".

As palavras acima foram proferidas pelo filósofo e  prêmio Nobel de 1927, Henri Bergson. Dentro do conceito de duração o passado coexiste com o presente. O tempo vivido não se confunde com o tempo cronometrado dos relógios, sequer tem ele a mesma regularidade. Podemos, inclusive, tecer distintos tempos: o tempo da natureza e o tempo da alma. O último é, por excelência, um tempo subjetivo. 

Por isto inclino a pensar no que escreve o também filósofo e escritor André Comte-Sponville:

 " é por isso que há um tempo para a espera e outro para a saudade, um tempo para a angústia e outro para a nostalgia, um tempo para o sofrimento e outro para o prazer, um tempo para a paixão e outro para a união, um tempo para ação ou para o trabalho, outro ou vários, para o descanso".

Objetivamente poder-se-á dizer que o passado é a parte do tempo que se refere ao período anterior ao tempo presente. Objetivamente o tempo pertence a todos. Já subjetivamente, podemos dizer que o passado é o tempo que não passa. O tempo subjetivo é, portanto, o tempo da intimidade que pertence a cada sujeito, que embora conviva com outros sujeitos o tempo subjetivo de cada um é não compartilhável enquanto temporalidade psíquica e pessoal. 

Humanamente o passado está intrinsecamente relacionado  à memória. E porque temos memória, assim como percebemos o caminhar dos dias e sonhamos com o amanhã, é que o ser humano é um ser absolutamente mergulhado na temporalidade. Passado e memória, um não existiria subjetivamente sem o outro, pois ambos estão entrelaçados e ambos são indissociáveis.

O passado não passa porque temos memória. O passado não passa porque o presente é consequencial. Nosso passado de hoje - que já foi o presente de ontem - foi como aquela pedrinha lançada em um lago cujo impacto gerou ondulações circulares que se propagaram pela superfície. Sim, nossas vidas são um grande e enorme lago existencial. 

O presente de ontem movimenta o presente de hoje, assim como o presente de hoje move o presente do porvir. O passado está, pois, embutido no presente, afinal o presente de agora foi construido de vários e incontáveis instantes que no instante imediato são passados. Inexiste presente sem passado. 

Nisto reside, por exemplo, a força destes versos do notável poeta americano, T.S.Eliot, retirado do poema East Coker:

" Em meu princípio está meu fim. Umas após as outras 
As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,
Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu ligar
Irrompe um campo aberto, uma usina, um atalho.
Velhas pedras para novas construções, velhos lenhos para novas chamas,
Velhas  chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeadas,
Terra agora feita carne, pele e fezes,
Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.
As casas vivem e morrem: há um tempo para construir
E um tempo para viver e conceber.
E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas vidraças
E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre
E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a silente legenda"

     

Há passados que se tornam lembranças. Há passados que se esquecem. Há passados que cicatrizam o corpo e a alma. Há passados que não se superam e que ficam como se fossem eternos. Lembranças, cicatrizes e esquecimentos, corpo e alma, fazem parte do baú de quem somos. Relembrando ou não somos sempre feitos com barros de outrora. 

Assim é criada e feita a nossa história, e não há pessoa, personalidade ou identidade sem história. Todavia, o que nos importa é o passado que não vira memória, que por não ter sido digerido permanece vivo e incomodamente no atual. É um passado que não se transformou ainda em passado.

Passado, como palavra, vem do latim "passus" (passo). Daí a ideia da existência como um caminhar, passo a passo, até o "praesens" (presente). "Praesens", por sua vez, como termo também latino se origina de "praeesse", que significa estar à frente, estar à mão. Porém, quando o passado vira um "passus aetermus", o que está a nossa frente é o nosso atrás.

Somos feitos de aniversários. Mas os anos dentro de nós não se acumulam sobrepostamente, porém se misturam, amalgamam-se  e se  embolam em uma massa ajuntada e disforme que chamamos de mente. Em qualquer tempo, em qualquer hora, em qualquer momento, o passado nos influencia, mas é no presente que ele toma forma e se referencia. O presente não é uma fronteira que se separa o fim e o início de dois tempos, como se fatiássemos o bolo dos nossos dias. O bolo somente apaga quando se apaga a vela do último instante da vida.

Há passado que vai... há passado que fica. Assim como há passado que se lembre e há passado que se dói. Seja lá como for, o que seria do passado se não houvesse o presente? 

Ou como poetiza Fernando Pessoa:  

" Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia".

(http://literalmente-literalmente.blogspot.com.br)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

CUIDE-SE CUIDADOR. CUIDE-SE!

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Assim como a criança chega ao mundo ‘de corpo e alma’, praticamente sem entender nada, porque entender é uma função cognitiva, ligada ao desenvolvimento das áreas racionais, do pensamento humano, um paciente com Alzheimer – desde a fase inicial da doença – passa a não entender mais, algumas coisas. Daí que começa a agir diferente e nem sabe explicar o porquê das suas mudanças. Parece ficar ‘mais implicante’ e menos atento. Como se diz, torna-se uma pessoa ‘mais difíceis’ de lidar.

Esta é uma transformação que vai se instalando gradualmente, na medida em que a doença progride. Mas não se trata de uma progressão linear. Ela acontece ‘aos saltos’. E, também suas manifestações oscilam, o que leva a mudanças de estado de humor ‘sem causa aparente’, parecendo ‘birra’.

Isso confunde muito aqueles que convivem com o paciente, porque ‘nunca sabem o que vão encontrar’ pela frente. O que foi feito de acordo ontem, hoje poderá gerar uma briga e, mais tarde tudo volta ao normal. Então, causa a impressão de que o paciente está querendo provocar, que está ‘fazendo de propósito’, que quer nos testar, que está manipulando. Além disso, o paciente pode achar divertidas, as nossas reações e, é aí que entorna o caldo.

O que é preciso entender de uma vez por todas – mas esta é uma forma de falar, porque leva um bom tempo até que se entenda – é que o cérebro dessa pessoa não está mais funcionando como funcionava antes. E daqui para frente, o doente vai surpreender cada vez mais. E isso vai requerer uma longa aprendizagem da parte daqueles que cuidam.

Uma das valiosas dicas: reaprenda a linguagem emocional. Este vai ser um grande trunfo em suas mãos para poder cuidar sem se estressar tanto. Lembre-se de que, ao perder parte de suas funções cognitivas, o doente de Alzheimer vai passar a reagir – e a agir – mais intuitiva e emocionalmente. Assim como os bebês captam desde cedo as emoções dos pais, os doentes de Alzheimer vão captar mais apuradamente as intenções dos filhos. Dos seus cuidadores.

Você poderá represar sua raiva. Mas o doente vai captar a sua raiva e, pior, vai pensar que é dirigida a ele e sentirá medo. Oras, o que uma pessoa com medo faz? Ou ataca ou se encolhe. De alguma forma, a pessoa tenta fugir da situação. Se a pessoa ataca, você vai sentir mais raiva ainda. Se ele se encolhe, você vai tentar ‘tirá-lo’ da toca, do seu mutismo, de sua recusa a fazer as coisas que você quer que ele faça e que, na maior parte das vezes, ele precisa fazer. Mas não na hora, nem do jeito que você escolheu que ele faça.

E como a pessoa vai fugir? Sua atenção vai derivar ainda mais, poderá ficar alheada e parecer não entender nem colaborar com mais nada. Difícil? Sim, muito difícil. Então, não adianta tentar esconder a raiva na frente dele, porque as emoções são vibrações que se transmitem à distância. Nosso corpo vibra e a mente do doente capta. Isso não quer dizer que o paciente voltou a ser criança, mas que passou a utilizar-se dos mesmos mecanismos intuitivos e sensíveis que, desde bebês todos usamos. É com estes mesmos mecanismos que começamos a decifrar o mundo e as nossas relações com as coisas e, principalmente, com as demais pessoas.

É assim com os doentes com Alzheimer. Reagem com seus sentidos, mais do que com seus pensamentos. Respondem mais ao conteúdo emocional das nossas falas, dos nossos gestos, das nossas intenções, do que àquilo que conversamos. Nossas palavras deixarão de fazer sentido, mas nossos gestos, nossos afetos impressos no tom nossa voz serão logo decifrados. E quanto mais a doença avançar, mais assim será. Sua vulnerabilidade crescente será também a sua força crescente sobre nós.

E, com certeza, o paciente de Alzheimer vai espelhar muito da sua pessoa! Você vai aprender mais sobre você própria. Ou próprio. Você será chamada a ser gentil, quando desejaria esganar. Será chamada a ser paciente, quando estará morrendo de pressa. Será chamada a ser muito mais respeitosa, quando você gostaria é de resolver tudo logo, de uma vez e sem consultar ninguém. 

Isso assusta muito. Você também terá que ser mais intuitiva. O paciente estará desesperadamente sofrendo o desgaste, a falência de suas capacidades: de se comunicar, de pronunciar o nome correto das coisas que deseja dizer ou demonstrar. Suas frases serão interrompidas pela fuga de suas ideias. Seus gestos serão mais duros e desastrados e, chegará um dia em que as mãos dessa pessoa deixarão de saber de acariciar. Seus lábios não mais irão sorrir e ela, ou ele, deixará até de saber engolir.

Você vai se sentir só e abandonada. E vai brigar com o mundo e com Deus, também. Vai se sentir pequenininha e carente, sem ter com que dividir. Por que somente aqueles que passam e passaram por isso, sabem do que você vive e sente. Sabem da perplexidade e da desolação causada em seu peito e em sua mente. De suas horas de silêncio, cansaço e agonia pela brutalidade da doença e pela vulnerabilidade daquele de quem você cuida ou cuidou.

Você terá sido tudo para aquela pessoa, assim como a mãe é tudo para seu bebê. Você terá sido empossada de todos os poderes, porque você terá o paciente, seja quem for em suas mãos. Você poderia tê-lo envenenado. E não o fez. Você poderia tê-lo empurrado escada abaixo. E não o fez. Você poderia tê-lo abandonado sujo, sob o sol ou ao relento, mas você o trouxe para dentro. Não só de volta a casa, mas para dentro de si.

Você terá aprendido a amar, tanto quanto a odiar. A aceitar, tanto quanto a se revoltar. A implorar por novas forças, tanto quanto a querer sumir. Terá tocado todas as notas e cores do amplo espectro das emoções humanas. E terá elegido aquelas que têm significado e propósito para você. E sairá desta louca experiência muito mais sábia do que jamais imaginaria. Nem tudo são flores, mas nem tudo são horrores. Seja cuidadosa com o paciente, que estes cuidados também se voltarão para você. Cuide-se, cuidador. Cuide-se.
(Ana Fraiman)