terça-feira, 4 de junho de 2013

9 DICAS DE PROTEÇÃO PARA O IDOSO NÃO CAIR

EM PAZ

Muito perto do meu ocaso eu a bendigo, Vida.
Porque nunca me destes nem a esperança falida
nem trabalhos injustos,
nem sofrimento imerecido.

Porque vejo ao final do meu rude caminho,
que fui o arquiteto do meu próprio destino;
que se extraí mel ou fel das coisas
foi porque nelas coloquei fel ou mel saboroso;
quando plantei roseiras, colhi sempre rosas.

...Certo, ao meu verdor vai seguir o inverno:
mas tu não me dissestes que maio seria eterno!
Achei, sem dúvida , longas as noites de meus sofrimentos;
mas não me prometestes apenas noites boas;
e também tive algumas santamente serenas...

Amei, fui amado e o sol acariciou a minha face.
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!

Autor: Poeta Amado Nervo

DOR E SOFRIMENTO - COMPANHEIROS INSEPARÁVEIS?

          
Habitualmente relacionamos o sofrimento à dor. Quanto maior a dor, maior o sofrimento. A dor pode ser física, como a de uma fratura óssea ou moral, como a de uma separação conjugal não-desejada. Todavia, podemos perceber que a relação entre dor e sofrimento não é fixa em termos de proporções.

É fácil observar situações em que o sofrimento é muito maior que o esperado para a gravidade da dor. Muitas vezes as crianças manifestam grande sofrimento diante de pequenas contrariedades ou, inversamente, pouquíssima preocupação diante de coisas que adultos consideram insuportáveis. Outras vezes, ouvimos falar de pessoas que passaram por grandes provações, como um tratamento de câncer e que não se abalaram tanto quanto seria esperado. Diríamos que tiveram menos sofrimento em relação ao tamanho da dor real que experimentaram.

O sofrimento, portanto, é uma experiência subjetiva diante da dor ou de sua possibilidade. Claro que essa é uma definição simplista, com um caráter operacional. A partir dela, todavia, podemos encontrar a felicidade como um oposto, uma imagem especular do sofrimento. A felicidade também é caracterizada como uma experiência subjetiva, só que de bem-estar físico, psicológico e social.

Dizem os filósofos que além da experiência subjetiva, também a crença ou pensamento que leva à sensação de felicidade deve ser verdadeira. Por esse pensamento não se pode considerar felicidade verdadeira aquela decorrente do uso de uma droga alucinógena, por exemplo. Aplicando o mesmo raciocínio de volta à questão do sofrimento, somos levados a questionar se o sofrimento real também depende de ser uma experiência subjetiva mais a crença verdadeira a respeito dessa experiência.

Os psicólogos dirão que basta a sensação subjetiva de sofrimento para caracterizar sua existência real. De fato, seria impossível a um terapeuta tratar um paciente caso tivesse que conferir se as queixas do mesmo correspondem a fatos da vida real ou são derivadas de sua visão equivocada. Os psicólogos trabalham com a realidade psicológica do paciente, o que verdadeiramente importa nessa perspectiva.

Como utilizar essas reflexões na vida real? Também procuro essa resposta. Vou compartilhar uma experiência recente esperando os comentários dos leitores. Atendi um senhor de 85 anos, trazido pela esposa e pelo filho ao meu consultório porque se encontrava distante, apático e esquecido. Conversando e instigando o paciente, finalmente ele se abriu e despejou uma grande carga de sofrimento que vinha sentindo por ter sido injustamente acusado de ter uma conduta errônea. Seu sofrimento se intensificava porque o pecado que lhe foi atribuído era grave de acordo com suas convicções religiosas. As lágrimas sentidas desciam do rosto digno daquele ancião que tinha como grande orgulho apenas o fato de ter sido sempre honesto, a despeito das dificuldades econômicas que a pobreza lhe trouxera. O sofrimento para ele era tão insuportável que afirmou preferir morrer a carregar aquela mancha em sua honra.

Aprofundando a anamnese e diante do assombro dos familiares, descobrimos que o paciente apresentava um sintoma delirante e que a tal acusação jamais havia acontecido. O curioso é que, com exceção dessa narrativa delirante, o paciente mantinha um discurso coerente em outros sentidos. Aparentemente, havia um declínio associado da memória e talvez um quadro inicial de demência.

Nesse caso, embora a experiência subjetiva do sofrimento fosse verdadeira e imensa, a crença sobre o fato gerador do sofrimento era falsa pois se tratava de um delírio. Obviamente, demos seqüência ao tratamento visando o controle dos sintomas delirantes  e da depressão associada, enquanto investigamos uma possível demência. Mas procuramos aliviar também o sofrimento desconcertante sentido pelo paciente, independente de ter uma origem plausível ou não.

Como a experiência do sofrimento é subjetiva e não guarda uma proporcionalidade fixa com os fatores que o originam,  podemos dizer que o padecimento é uma construção da nossa própria mente e nela deve estar a chave para a resolução desse problema. Infelizmente, quando estamos submetidos a um sofrimento decorrente de uma percepção distorcida da realidade é muito difícil conseguirmos entender que nossa mente está produzindo tudo isso. Quando as pessoas se dão conta de que a dor pode até ser inevitável mas que nós decidimos o quanto sofreremos por ela, uma revolução ocorre internamente.

Talvez tudo esteja na nossa mente e ainda não tenhamos a elevação necessária para perceber isso. A vida nos apresenta situações e circunstâncias adversas, mas devemos estar atentos porque há um espaço de liberdade entre a dor dos fatos e o sofrimento que carregamos. Nesse espaço podemos trabalhar para diminuir o pesar diante da dor ou até transformar experiências desagradáveis em motivo de alegria e crescimento. Tudo é mente.

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COMO É VIVER COM UM DOENTE DE ALZHEIMER

CÉREBROS DANIFICADOS, MENTES FRAGMENTADAS


A doença de Alzheimer é uma doença degenerativa do cérebro. Os neurônios, as principais células cerebrais, vão perdendo suas funções e morrem em decorrência da patologia. As placas amilóides e os emaranhados neurofibrilares parecem ser as causas da degeneração dos neurônios. Essas células são permanentes e se regeneram muito pouco. Os neurônios que temos no cérebro adulto são os mesmos que carregamos por toda a vida. Isso faz sentido porque essas células gravam as nossas memórias e armazenam os sistemas de controle do corpo. Se elas fossem trocadas a cada 120 dias, como as hemácias, teríamos que reaprender a falar, escrever, ler ou andar de bicicleta a cada 4 meses.

O cérebro humano tem mais de 100 bilhões de neurônios e cada um deles é capaz de se conectar com até 10.000 outros neurônios. A complexidade resultante dessas conexões é que permite que desenvolvamos tarefas muito elaboradas como ler e refletir sobre um texto, falar em público ou fazer contas mentalmente. A manutenção da integridade desse sistema intricado é fundamental para continuarmos a desempenhar normalmente nossas funções da vida diária. Uma lesão que destrua os neurônios ou corrompa a arquitetura das conexões interneuronais leva a uma perda de função física ou mental. Se temos, por exemplo, um AVC na região frontal esquerda, a área da fala fica comprometida e teremos um distúrbio de linguagem específico dessa região, denominado afasia de Broca.

Na demência da doença de Alzheimer não existe uma lesão abrupta como no AVC, mas temos a morte acelerada dos neurônios que começa em algumas áreas específicas e depois se alastra por todo o cérebro. No final, o que vemos é o cérebro inteiramente atrofiado pela moléstia. Habitualmente, as áreas acometidas primeiramente são os lobos temporais nas suas porções mais internas. Essas áreas são cruciais para os mecanismos de memória e por isso o esquecimento é um dos principais sintomas do Alzheimer. Eventualmente as áreas parietais posteriores podem ser os locais de início da doença e o indivíduo tem dificuldade de se orientar no espaço ou fazer sentido do que enxerga no seu campo de visão ou ainda ter dificuldade em reconhecer as pessoas pelo rosto.

O avanço da doença de Alzheimer leva à perda progressiva de todas as funções cognitivas e até motoras nos estágios mais avançados. Conforme a degeneração evolui, podemos observar que a mente da pessoa vai se desconstruindo gradualmente. Mas esse processo não é linear e os familiares podem identificar dias melhoras e dias piores, assim como momentos de maior ou menor lucidez dentro de um mesmo dia. Juntando-se à confusão mental os sintomas comportamentais também decorrentes da degeneração cerebral, podemos presenciar momentos de agressividade e agitação, como em um paciente que não reconhece que está em sua própria casa. Ser cuidador nessas horas não é uma tarefa fácil.

Para os familiares mais próximos, as variações de humor do paciente e as palavras que ele pode lançar sem reflexão podem ser particularmente dolorosas. Na fase moderada da doença, a pessoa já não tem os mecanismos normais de autocontrole e não consegue censurar suas próprias palavras. Pior ainda, não consegue interpretar adequadamente a realidade à sua volta e se achar que está sendo roubada ou traída, agirá de acordo com suas impressões sem medir as conseqüências. O comportamento desconexo dificilmente é compreendido por aqueles que conheceram a pessoa ao longo da vida.

Isso acontece porque o cônjuge do paciente ou seus filhos tentam interpretar aqueles comportamentos com base no que já conheciam da personalidade pré-mórbida da pessoa. Nessa tentativa de dar sentido às coisas acabam se magoando pois geram compreensões errôneas do que realmente acontece com o doente. Por isso é tão importante entender como a doença de Alzheimer evolui. Façamos uma analogia da mente com um quebra-cabeça e talvez enxerguemos melhor a questão.

Um cérebro danificado gera uma mente fragmentada. O cérebro é como um quebra-cabeça de 1000 peças, daqueles que antigamente se montava e se emoldurava de tanto trabalho que davam. Imagine que você conhece esse quebra-cabeça, convive com ele há décadas e sabe a figura que se forma nele: a personalidade. Agora suponha que você desmonta esse quebra-cabeça, embaralha as peças, pega um punhado delas e joga fora, tentando remontar a imagem. Esse processo se repete ao longo do tempo, de modo que a uma certa altura você tem 30% das peças e as coloca da melhor forma possível tentando recriar a imagem original.

Se chamarmos alguém que nunca viu esse quebra-cabeça montado e pedir para que diga o que está enxergando, pode ser que identifique uma pequena árvore em um grupo de peças ou suponha ver um pedaço de céu, mas não conseguirá visualizar a figura como um todo porque ela não existe mais. Essa é a realidade atual do quebra-cabeça que foi perdendo peças e já não tem um significado pleno, apenas fragmentos soltos do que foi um dia. Essa é a verdade da mente do paciente e que os familiares não aceitam. O paciente ora está um pouco mais lúcido porque está utilizando uma região que não está totalmente comprometida , ora está completamente desconexo e age não por sua vontade, mas de acordo com o estado de fragmentação de sua mente causado pelo Alzheimer. Não há nada de proposital nem de pessoal em suas atitudes.

Aceitar que a personalidade de uma pessoa querida está se esvaindo é difícil para os familiares. Como eles sabem o que era a imagem original, ficam tentando encontrar sentido nas peças soltas e justificar os comportamentos como se fossem voluntários. Como o processo é gradual, fica ainda mais desafiador porque em um determinado momento não sabemos o que é da pessoa e o que é da doença. Mas como regra, podemos lembrar que quanto mais peças foram perdidas, maior a probabilidade de que a figura não faz mais sentido. Quanto mais danificado o cérebro, mais fragmentada a mente e menos consistente a personalidade.

É preciso fazer as pazes e se conformar com o problema. É necessário saber aproveitar os momentos de lucidez e se felicitar com os momentos de alegria. Igualmente importante é poder dar o conforto nos momentos de aflição do paciente, quando a doença fala mais alto. Honrar os mais velhos é ter a capacidade de dar o suporte quando o indivíduo sofre os efeitos inelutáveis do tempo. (Autor: Dr. Roger Taussig Soares)

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LABIRINTO : DESORIENTAÇÃO


"A busca desesperada do sentido muitas vezes nos leva a bater na figura da porta ou entrar no labirinto. A porta é o elemento que se abre, é a cisão, o corte que permite a passagem dos corpos, estabelece um dentro e um fora, estabelece uma ligação. Porta em si a própria existência do espaço, o inicio da vida. 
Na antiga Escandinávia os exilados levavam consigo as portas de suas casas, em alguns casos lançavam-nas ao mar e desembarcavam no lugar onde encalhavam essas portas. Eram, a sua vez, passagens e bússolas. Mas existem portas que não levam ao nada, num jogo sinistro, um labirinto composto de portas e passagens, como no filme O cubo.

Na desorientação estamos simultaneamente dentro e fora, ou simplesmente nem dentro nem fora. É essa desconfortável sensação fora da lógica que define a sensação expressa por Heidegger, do ‘eu’ se ver desagregar e se tornar um objeto de representação para o outro. De se abrir em nós o que nos olha no que vemos, apropriando-nos mais uma vez da expressão de Didi-Huberman. 

A palavra desorientação associa-se a uma indisposição espacial, uma desorganização. Isso porque acreditamos que orientar é organizar e vice-versa, dar um ‘sentido’ às coisas. Daí a importância da geometria ocidental, que sempre privilegiou a visão e a regularidade dos espaços, os alinhamentos da cidade reticulada na formação do sentido moderno. Quanto mais a sociedade do espetáculo avança em sua trajetória ao nada, mais rígidas e especializadas suas formas se tornam.

Para a organização de nossa cultura foi necessária uma disciplina imposta às formas, ao longo de alguns séculos, através de estratégias estéticas compositivas baseadas em simetria, assimetria, ritmos, em uma disposição dos corpos no espaço organizados e disciplinados, sobretudo de uma acomodação da visão mediante as regras da perspectiva, do distanciamento entre os corpos, e do incremento de luz despejado sobre eles. Ou seja, a perspectiva não existe como coisa natural, foi preciso criar e construir essa realidade pintada.

Entretanto, não devemos confundir a desorientação com o estranhamento ou com o surpreendente (schock). Freud já apontava a diferença, entre a palavra unheimlich e o surpreendente. A desorientação nunca chega a ser uma surpresa, ela imediatamente joga o sujeito num espaço indeterminado, num espaço liso, escorregadio, num tempo indeterminado, onde não há lugar para o surpreendente, onde ele não faz o menor efeito.

O estranhamento foi um recurso bastante utilizado pelos surrealistas, por Eisenstein, Bertolt Brecht e também pelos artistas dos anos 60, com a intenção de acabar com a apatia estética. O estranhamento pressupõe um corte, um schock, um despertar; e não necessariamente uma desorientação, muito menos pode ser visto como algo sinistro (6). Entretanto, no universo das artes, alguns teóricos e críticos afiliados a Freud, principalmente a escola francesa de estética, recorreram à Inquietante Estranheza para designar, por outro viés, a teoria do estranhamento, do schock (7).

A inquietante estranheza produz a desorientação, mas, uma vez desorientado, nada mais produz a inquietante estranheza. A desorientação é um deslize do espaço-tempo. Talvez o mais difícil de entender e articular é que o sentido do espaço é também o sentido do tempo. Todo nosso sentido, nossa compreensão do mundo, é fruto desse casamento contratual entre espaço-tempo. Mas com a desorientação do espaço vem junto o aniquilamento do tempo. O tempo zero.

O sentido de orientação e desorientação do espaço-tempo pode ser melhor compreendido com o auxílio dos conceitos de tempo cíclico e de tempo linear. No tempo circular, característico dos povos primitivos, a arquitetura e os espaços são quase imutáveis, a cultura de um modo geral permanece a mesma. O que aconteceu com meus avós está acontecendo comigo agora, e o que aconteceu comigo agora, acontecerá com meus sucessores. Na cultura ocidental, linear e acumulativa, os espaços e a arquitetura mudam freqüentemente, e se reserva à arquitetura o papel de monumento, de reservatório da história. O elemento que resiste à passagem do tempo (8). No tempo cíclico as orientações espaciais arquitetônicas permanecem as mesmas devido à permanência das formas; já no tempo linear elas estão constantemente mudando, provocando não só um estado de constante desorientação, conforme a sociedade vai mudando, mas essas desorientações são graduais, e na maioria das vezes permitem que só possamos compreendê-las através das gerações. Por isso, utilizamos flechas, placas, sinalizações para nos orientarmos no tempo e no espaço.

A nadificação do tempo é esse período nem sempre agradável que experimentamos quando estamos desorientados e sentimos um forte impulso para retornar à casa, ao lar, como indicava Freud, e que não tem correspondente nem no tempo cíclico, nem no linear, ou tampouco no espetacular, constituindo uma outra categoria de tempo, muito próxima ao que poderíamos designar como ‘tempo zero’, onde tudo se move mas o tempo não passa. Onde o próprio tempo se contradiz. Uma experimentação íntima, real, pessoal em todos os sentidos, mas que não existe para os outros. "Geléia ontem ou geléia amanhã, mas jamais geléia hoje, dizia Alice".

A desorientação também pode ser interpretada circunstancialmente como “estar perdido”. Significa andar, andar e não encontrar nenhum ponto de referência ou chegada. Uma situação onde andamos em círculo como os ponteiros do relógio, o tempo passa, mas temos a nítida sensação que permanecemos no mesmo lugar, no mesmo espaço delimitado. Tudo é também igual nessa situação, todas as coisas se vêem envoltas no velo do igual, e não conseguimos encontrar uma saída. É como estar no labirinto, como se todas as portas se fechassem, nos sentimos como que aprisionados. Na desorientação estamos sempre fora, fora de nós, fora do mundo organizado. Nesse estado o interior passa a ser a saída, a orientação.

Na desorientação podemos experimentar, entre outras, dois tipos de sensações: uma, onde o tempo não passa, mas o espaço permanece em sua extensão; e outra, onde o tempo passa, mas o espaço parece condenado a um encarceramento definitivo. Tudo sugere que no estado da desorientação existe uma ruptura da sincronia do enlace tempo-espaço, uma outra compreensão do mundo, uma outra visão.
O tempo da desorientação é o período no qual nos vemos enquanto representação. Deslocados de tudo, de todos, inclusive de nós mesmos, ocos. Passamos para o outro lado do espelho. É como se fôssemos jogados ali sem saber porquê e nem quando.

Lembro-me de um antigo seriado de TV, que ajuda a ilustrar essa sensação de desorientação espacial temporal, O Túnel do Tempo (10), cujos personagens são dois cientistas que viajam pelo tempo através de uma curiosa máquina em forma de túnel, onde eram literalmente jogados em diversos momentos e situações da história por essa máquina que havia fugido ao controle. Funcionava aleatoriamente, andando à deriva ao longo da história. Esses personagens, a cada vez que eram jogados nesses momentos da história, experimentavam rapidamente essa forte sensação de desorientação, sem saber o que estava acontecendo; para orientá-los, um ou outro sempre comentava que deveriam estar, provavelmente pelas roupas, ações, em determinado ano, em determinado lugar, cidade, ou determinado fato histórico. Na verdade quem acabava orientando-os era o conhecimento da história, a própria história universal, essa pseudociência que não tem outra função do que a pretensa orientação temporal do homem, que preferiu o tempo linear ao cíclico.

O grande indutor da orientação e desorientação é o conhecimento, reconhecimento e desconhecimento. Reconhecer um determinado lugar, uma determinada situação, é orientar-se, dar um sentido. O conhecimento é aquilo que explica, “agora faz sentido”. Mas numa época cada vez mais plena de mudanças e desorientações, cada vez mais é necessária sua contrapartida: a aquisição de memória a granel para guardar nosso conhecimento, para que não se perca nosso sentido, nossa história.

Em uma das passagens do livro Cem Anos de Solidão, García Márquez nos apresenta uma curiosa doença que a princípio se manifestaria através da peste da insônia e que evoluiria para uma situação mais terrível: o esquecimento. Quando o enfermo acostumava-se a estar acordado por dias e dias, sem sentir-se cansado, sua memória começava a se apagar, gradualmente. Primeiro as lembranças de infância, depois o nome e o sentido das coisas e das pessoas, e, num estado terminal, esquecia-se por completo da consciência da própria existência, caindo em um estado que Márquez descreveu como uma espécie de idiotice sem passado: “José Arcádio Buendía decidiu então construir a máquina da memória, que uma vez tinha desejado para se lembrar dos maravilhosos inventos dos ciganos. A geringonça se fundamentava na possibilidade de repassar, todas as manhãs, e do princípio ao fim, a totalidade dos conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como um dicionário giratório que um indivíduo, situado no eixo, pudesse controlar com uma manivela, de modo que em poucas horas passassem diante de seus olhos as noções mais necessárias para viver...”

Com o labirinto, a desorientação se persegue conscientemente. Em sua forma clássica, a mais simples, a planta de um labirinto mostra, num dado espaço, o trajeto mais longo possível entre a entrada e o centro. Cada parte desse espaço se visita como mínimo e solenemente uma vez: no labirinto clássico não se pode escolher. Mais tarde inventaram labirintos mais complicados, acrescentando caminhos sem saída, pistas falsas que obrigam a voltar atrás; entretanto, existe um único caminho correto que conduz ao centro. Este labirinto é uma construção estática que determina os comportamentos.

Há esse outro sentido para o labirinto, o de nó, um laço que deve ser desatado. O que me fez lembrar de um trecho extremamente esclarecedor e lúcido de R. D. Laing, em seu clássico livro, Laços, que nos permite avançar na busca de uma saída para o labirinto:

“A gente está dentro
logo a gente está fora daquele dentro onde a gente esteve
A gente se sente vazia
porque não há nada dentro da gente
A gente trata de pôr dentro da gente
aquele dentro do fora
dentro do qual a gente já esteve...
Mas é pouco ainda. A gente trata de chegara
o dentro daquele fora do qual a gente está dentro e
chegar ao dentro do fora. Mas a gente não chega
dentro do fora pondo o fora pra dentro
pois embora a gente esteja toda dentro do dentro do fora
a gente está fora do próprio dentro da gente
e quando a gente entra no fora
a gente permanece vazia porque
enquanto a gente está dentro
mesmo o dentro do fora está fora
e ainda não há nada dentro da gente
Nunca houve nada dentro da gente
e nunca haverá nada dentro da gente”

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