sexta-feira, 4 de abril de 2014

DE CORPO PRESENTE





Porto Alegre, bairro Passo D’Areia, Rua Itapeva, n° 51. Neste local encontramos uma casa amarela, de dois pisos, com o jardim bem cuidado e uma pequena grade dividindo o terreno da calçada. Esta não é uma residência comum e a placa no jardim anuncia: Novo Lar, Centro Geriátrico de Assistência e Repouso. É neste endereço onde Edna Selma Mc Mannis Torres, 79 anos, mora desde setembro de 2008.

Ela divide o espaço com outros 20 pacientes, muitos deles acometidos da mesma doença de Edna, o Alzheimer. Enquanto alguns idosos assistem à TV e outra senhora repete, insistentemente, a mesma frase- “vem paizinho, vem”-, Edna caminha no andar de cima acompanhada de seu filho mais velho, Eduardo Torres, de 57 anos. Ela não o reconheceu.

Com seus cabelos grisalhos, vestindo uma calça azul marinho e uma blusa de tom mais claro, Edna caminha pelo corredor apoiada no braço do filho. Seu corpo demonstra fragilidade, a magreza é resultado do avanço da doença. Seus passos são lentos, vacilantes.

Antes do Alzheimer caminhar era uma das atividades favoritas de Dona Edna. A esposa de Eduardo, Iael, conta que a sogra tinha uma rotina bastante ativa. Ela gostava de manter a casa em ordem e de fazer ajustes em roupas com seus apetrechos de costura. Mas a vida de Edna aos poucos foi sendo modificada. A diferença sutil entre esquecimentos e lapsos da idade, fez com que a família não percebeu que as falhas da memória tinham nome científico. Aos poucos esses esquecimentos se tornaram mais aparentes e as caminhadas, mais difíceis.

O filho Fernando, com quem Edna morava na época, fez um crachá com a identificação e endereço de sua residência para ela usar quando saía para caminhar. Sua esposa, Brigitte, diz que certa vez a sogra caminhou de sua casa, no bairro Três Figueiras até o Strip Center, próximo ao Terminal Triângulo na Avenida Assis Brasil, em Porto Alegre, um percurso de quase cinco quilômetros. Graças a identificação, a família foi avisada.

Entretanto, antes da ideia do crachá, outro percalço aconteceu em uma das caminhadas de Dona Edna, quando esta pegou um táxi para voltar à sua casa e não soube dar o endereço ao motorista. Por sorte, o condutor do veículo era do ponto que Eduardo costumava utilizar. Ele se lembrou de Edna e de seu endereço e a levou em segurança para casa.

Eduardo conta ainda que sua mãe podia ficar lendo um jornal durante uma hora e, logo após, não lembrar o que tinha acabado de ler. Em outra situação, Edna foi 15 vezes à mesma loja para escolher o presente de aniversário de Iael, uma compoteira. Ela não lembrava que já tinha estado lá antes. Na própria clínica, minutos depois de fazer seu lanche, Eduardo pergunta se ela já comeu. Edna responde com firmeza: “Não, não comi”. O Alzheimer dificulta o armazenamento de novas informações segundo a neurologista Liana Lisboa Fernandez.

Quando tudo isso começou nem os familiares sabem. A cronologia dos fatos é incerta. Eduardo lembra, porém, que sua mãe sofreu um acidente em meados de 2002, onde, após uma queda, bateu a cabeça. Nessa ocasião ela ficou internada no Hospital Moinhos de Vento, quando os sinais do Alzheimer ficaram mais evidentes. “Ela olhava para a janela e enxergava paisagens dos EUA ou então, achava que estávamos em Passo Fundo, onde morou na juventude”, relata Eduardo.

Edna já não sabia mais onde estava. Daquele instante em diante, a doença foi tomando conta, gradativamente. Ela foi se despedindo de seus afazeres, de sua personalidade, de sua família e de sua vida.

Os familiares se viram obrigados a restringir determinadas atividades. Após esquecer o gás do fogão ligado algumas vezes, cozinhar ficou proibido. As caminhadas sozinhas também. Edna não aceitou muito bem os fatos. Nos momentos de crise, gritava na janela que estava presa e que sua família não a deixava sair. “A polícia chegou a bater na nossa porta para saber o que estava acontecendo”, relata Brigitte.

A nora, que conviveu muitos anos com a sogra, diz que sempre teve uma ótima relação com Edna, mas que, após a doença, passou por momentos difíceis. A casa em que viviam era de dois andares, e Edna insistia em permanecer no segundo piso, o que além de dificultar os cuidados da família, era perigoso para ela. Durante a noite, Edna levantava, mudava os móveis de lugar e acendia todas as luzes. Quando Iael e Brigitte tentavam lhe dar o remédio, Edna xingava e, muitas vezes, tentava agredi-las. Chegara o limite da família. Eles já haviam pesquisado algumas clínicas e resolveram que, naquele momento, era o melhor a se fazer.

Universo particular

Para ela, agora, só resta o que Eduardo chama de “seu mundinho”: um universo particular onde as pessoas que a amam acompanham de fora, sem entender ou serem convidadas para participar. Apesar da fragilidade aparente, quando sentada, Edna mantém uma postura altiva, com a cabeça erguida, uma das mãos pousada no braço da poltrona e a outra deslizando no queixo, como quem reflete sobre a vida. Talvez até esteja refletindo. Só não é possível descobrir com certeza.

Sua fala não é compreensível. Mistura os três idomas que falava com fluência antes da doença: inglês, alemão e o português. Brigitte instiga a sogra falando em alemão: “Frida, was will´st du?” (O que tu queres?). Edna não responde, permanece em silêncio, com o olhar perdido. Eduardo repete a pergunta, num tom mais alto. Edna parece compreender, repete a pergunta e depois responde: “ja, ja” (sim, sim). Logo ela emenda mais algumas expressões desconexas em alemão “alles gut hier” (tudo bem aqui) e alles rot (tudo vermelho). Em seguida volta a falar em português “deixa, deixa…tem que limpar, passar um paninho nela por fora”. Palavras que para os outros provavelmente não fazem sentido algum, mas que, para ela, representam algum fragmento do passado.

O presente não existe, o que quer que ela faça, ou diga, Edna não lembrará no instante seguinte. Tudo que ela tem é o seu passado e alguns raros momentos de lucidez. A Edna como a família a conhecia, já não existe mais. Eduardo acredita já ter se despedido de sua mãe. Iael diz que sentiu muito ao ver a sogra com Alzheimer, pois ela estava há pouco tempo na família e acabou nem tendo a chance de conhecer a Edna na sua essência. Foi com tristeza que a nora acompanhou o avanço da doença e a despedida de Dona Edna de sua personalidade.

Na medida do possível, eles procuram fazer visitas na clínica, ou então, em alguns domingos comemorativos, levam Dona Edna para almoçar com a família. Dos três filhos e noras, oito netos e uma bisneta, nem todos conseguem se fazer presentes. As coisas já não são como antes.

Edna espera pelo desfecho inevitável. Enquanto isso, os familiares convivem com o pouco que resta da pessoa que amam. Seja nos gestos, ao aceitar um carinho e retribuí-lo, seja nas lembranças do passado, ela ainda está lá. Os familiares se despedem de Dona Edna, que é levada pela técnica de enfermagem para a sala de TV, junto com os outros pacientes. Antes de Eduardo descer as escadas, a técnica questiona Edna: “quem é ele?”. Depois de alguns momentos pensativa, ela responde: “Eduardo”. Naquele instante ela o reconheceu. Mas para quem tem Alzheimer como Dona Edna, cada dia é um novo dia, e cada momento como este, é uma conquista. Um reencontro com a lucidez.
http://kellerbarbara.wordpress.com/

ALZHEIMER - DESAFIOS

 
Escrevo no momento em me que preparo. Olho para o passado e convoco as memórias paradas no tempo e a vida  que muda, sem outra opção que não seja a resignação. Perpetuo lembranças quase adormecidas pela violência do presente e contemplo o silêncio do entardecer…
Na lonjura do tempo  uma luz irradia ainda, enquanto  se afasta em direção ao outono. Voltarei aqui para permanecer, para de novo estar presente. Será então um outro tempo.

O regresso
Mulher aguerrida, determinada, calejada pela vida, pela dor e pelo trabalho, acompanhava o marido. Fazia-o por imposição sua, não se permitia deixá-lo nas lides mais duras, mesmo que ele insistisse e que ela reconhecesse que seria mais benéfico não o fazer. Gostava do campo onde sempre vivera. Na sua memória estavam os terrenos herdados e os tempos de antigamente em que a vida se fazia de sol a sol. Naquele dia de abril de 2010, lembrara a conversa tida com Cristina. Estranhava alguns acontecimentos que lhe diziam ser verdadeiros e por ela presenciados, mas que a sua memória não reconhecia: a mudança de cor das divisões da casa, os filhos de pessoas amigas, o reconhecimento da sua própria roupa, as romarias a festas religiosas…
Estava Dulce nestes pensamentos e duplamente confusa por não saber como era possível que a memória a atraiçoasse (a ela, que na Escola Primária, como se designava na altura, até tinha tido um diploma de louvor) e por considerar ser normal para a sua idade, não querendo reconhecer a dificuldade de lidar com isso. Tinha já setenta e três anos. Portanto, como mulher definida que era, não autorizava que a desdissessem e tinha deixado bem claro que aqueles lapsos faziam parte da vida. Era tudo tão mais simples assim, não era? Pois assim seria.
Imbuída por estes pensamentos, estremeceu quando ouviu a voz de José. Acabara a semente e teriam de voltar no dia seguinte. Não achou bem e prontificou-se a ir buscar mais a casa, afinal o sol ainda ia alto e no dia seguinte haveria muito mais que fazer.
Sentou-se esbaforida. Sabia que tinha de voltar, mas algo se passava. Resolveu chamar pela filha e pedir ajuda. Explicou que se perdera e que quase fora atacada por cães. A sorte fora que estavam presos e não tinham podido atacar.
O quê?! Por cães?! Mas não há cães presos por correntes na estrada… Bem, teria de resolver o problema mais imediato no momento. Depois de se abastecer de sementes, foi levá-la junto ao terreno.
Voltou aos seus afazeres, pensativa. De novo ouviu chamar o seu nome. Nem queria acreditar! O que se passara?! Inacreditável! Enganara-se no caminho para chegar ao terreno onde o marido a esperava já seriamente preocupado pela demora. Foi lá levá-la, voltou para casa e fez algumas pesquisas. Marcou então consulta numa neurologista.
Indignação
Evidente contraste entre a elegante roupa que veste e o seu semblante. Alguém diria que a magoaram irremediavelmente.

No consultório médico não contém a indignação por muito tempo. Nunca esperou que a sua própria filha lhe fizesse uma coisa daquelas! Levá-la a um médico da cabeça! Ela estava bem e não  entendia e não merecia tal coisa!

Queixumes repetidos vezes sem conta, visivelmente alterada, quer na sala de espera, quer na entrada, para onde Cristina  a arrastara com o objetivo de fugir aos olhares dos outros, alguns insidiosamente incriminadores.

- Então, menina Dulce, diga lá porque é que está aqui.- Convida a médica, com voz melodiosa e ar risonho, pegando-lhe na mão e olhando para a sua expressão facial.

A indignação não se fez esperar. Vociferou:
- Olhe, não sei. O meu pai e a minha mãe, que estão aqui, que lhe digam!

O diagnóstico foi quase imediato. No entanto, houve ainda uns testes. Três palavras para memorizar (casa, maçã e gato), rapidamente esquecidas, apesar da instrução dada inicialmente e repetida para que fosse bem percebida; umas contas de somar e subtrair, em que acertou, e questões de localização espácio-temporal em que se perceberam sobretudo dificuldades a nível de localização temporal.

Seguiram-se exames médicos: análises ao sangue e uma TAC. Depois medicação para a Doença de Alzheimer e recomendações sobre como lidar com a doente: olhar nos olhos, falar com calma, propiciando sempre um clima de confiança e, a parte mais difícil, reconhecer que é uma doença progressiva e irreversível em que a medicação apenas atenua a progressão da doença nas fases iniciais. Atinge a memória e, progressivamente, as outras funções mentais, acabando por determinar a completa ausência de autonomia dos doentes.

O mundo desabou. Bem lhe dissera Ana. Pensava agora nisso e em como a vida era caprichosa. Em Coimbra sempre se tinham dado muito bem, dividiram o quarto, as conversas, as alegrias, as tristezas e assim continuaram pela vida fora. Agora, além da mesma paixão pela profissão tinham ainda em comum a doença das mães. Também a mãe dela  era doente de Alzheimer, embora tivesse começado a terapêutica vários anos antes e fosse oito anos mais nova. Saberia mais tarde que a evolução seria também diferente.

Adaptação  e   mudanças

Em 2010 e 2011 proteção e vigilância  passaram  a fazer parte integrante do vocabulário e de cada minuto  todos os dias. Valeu essa vigilância para evitar danos maiores ao constatar, por  exemplo,  o gás do fogão aberto mas sem chama ou o manípulo  de uma torneira retirado de tanto desenroscar e  um jato de água a inundar a cozinha. Passou também pelo vestuário: depois de vestida, retirar uma camisola interior que surgiu inesperadamente por cima da blusa ou dois pares de cuecas vestidos por cima das calças…
A confusão mental era cada vez maior. Insistia em fazer  algumas tarefas domésticas  sozinha, afinal, sempre as fizera e sempre gostara de libertar aos outros o trabalho que podia fazer. No entanto, cada vez se verificava mais dificuldade.  Algumas dessas coisas passariam até a ser, mais tarde, vistas como episódios anedóticos, contados ou relembrados com um sorriso, contrariamente ao sentimento de fúria que imperava quando se tinha de  repor a ordem das coisas. Fazem parte desses episódios anedóticos a roupa que aparecia no guarda-roupa de algum outro elemento da família, uma salada de alface temperada com vinho do Porto  e um molho de talheres muito bem guardados numa gaveta  da cômoda no seu quarto. Algumas vezes foi encontrada a vestir umas calças enfiando a cabeça numa das pernas e um braço na outra e furiosa e insistentemente procurava algo onde pudesse enfiar o braço que faltava.  Estes pequenos desvarios não eram questionados ou referidos em sua presença, porque não valia a pena e só a iriam deixar angustiada  e triste, caso estivesse num breve momento de lucidez.
Observando-a, a tentar realizar uma qualquer tarefa e  vendo a sua frustração por não saber como a fazer, fazia-se imediatamente o confronto com a Dulce de outras épocas. A mulher ágil que labutava para ter o quintal cultivado e a casa farta, o jardim e a casa arranjados já não existia, era apenas uma sombra do passado. Era rigorosíssima  com o preceito com que as coisas deviam ser feitas e com os horários. Não se permitia alguma descontração se algo não fosse feito conforme o previsto.
Imperava frequentemente no espírito de  Cristina a interrogação “Como é possível?!”. O conflito entre o lado racional e o emocional passou a ser  também uma constante. Investigara, recolhera muita informação em diversos meios sobre a doença, as suas fases, a mudança de comportamentos dos doentes e a (in)eficácia da medicação. Tudo o que sabia não ajudava muito, porque mentalmente estabelecia a diferença entre o que já era habitual no seu quotidiano e o que fazia parte habitual da vida das outras pessoas. Não havia comparação possível. A clivagem foi-se agudizando aos poucos; eram dois mundos completamente diferentes e incompatíveis. A vida de Ana também era pautada por estas mesmas interrogações e pelo mesmo tipo de vivências, embora a sua mãe mantivesse um grau de autonomia bem diferente. Esquecia o sítio das coisas, mesmo das mais comuns e de uso quotidiano,  não sabia  se estava na sua própria casa ou não, embora conseguisse ainda vestir-se e cozinhar, sob vigilância.
As rotinas de Dulce passaram a ter de ser acompanhadas por  Cristina, por José ou por outras pessoas significativas, da família ou do seu círculo de amizades. Estar sozinha passou a ser impensável. Havia o risco de se perder novamente e até de não ser capaz de voltar à residência. O apoio familiar foi muito importante, embora nem sempre tenha sido muito bem recebido por Dulce, apesar de ser apresentado da forma mais camuflada possível. Havia sempre que arranjar um pretexto para que alguém estivesse presente. Questionava o porquê de estar sempre alguém a vigiar.
- Olha lá, tens de me manter aqui fechada à chave? Porquê?- inquiria.
- Sabes que tem havido muitos assaltos e ficamos melhor  e mais seguros se o portão estiver fechado. Se vier alguém toca à campainha.

Era a resposta possível. Havia que manter alguma coerência no diálogo, tendo em conta também que o discurso   ou os questionamentos de Dulce pertenciam já a um domínio diferente da realidade. Se insistia em ir a casa dos pais e disso não abdicava sem exaltação, uma solução  era telefonar a Laura, uma prima, que a ouvia e respondia às suas inquietações como sendo a sua própria mãe. Dulce dizia-lhe então que jantava ali, que só iria para casa no dia seguinte e serenava.

Até dentro da vila, José a acompanhava nas suas frequentes deslocações ao Centro de Saúde. Nalgumas atividades recreativas, e sobretudo em locais povoados por muita gente, redobrava-se  a atenção. Em setembro de 2011, em Aveiro, perdeu-se por breves minutos, o pânico foi imediato!

E agora? Dulce não conseguiria procurar ajuda junto de um agente da GNR e dizer-lhe quem era! Felizmente, a família separou-se e foi encontrada!

 Exaustão

Os episódios de fuga tornaram-se frequentes. E a confusão espácio-temporal também. Insistia em saber dos seus pais, questionava por que razão não a  vinham ver.
- Deve ter-lhes acontecido alguma coisa… Tenho de lá ir. Tenho mesmo de ir.  Anda comigo, se eles estiverem bem, voltamos. – dizia.
Por vezes, curiosamente próximo da hora das refeições principais e ao pôr-do-sol, insistia em ir ver aqueles a quem chamava a sua família (os pais já falecidos há mais de trinta anos e a irmã há mais de vinte), levando inclusivamente alguns objetos: roupas, calçado ou louça.  Nessas alturas achava que tinha vindo para aquela casa de manhã, para ajudar e que teria de regressar a casa. Revoltava-se quando não conseguia os seus intentos, argumentando que não lhe podiam fazer aquilo, que tinha o direito de ir embora e que nunca se vira tal coisa! Nalguns  desses dias, em que a estratégia do telefonema  ou a dispersão da conversa para outros assuntos não surtiam efeito, a agitação levava-a a ser levada para a cama apesar da sua resistência e contestação. Gritava então a plenos pulmões que a deixassem ir embora, que iria mesmo  que fosse só com a roupa que tinha vestida, porque queria o seu pai e a sua mãe.  A sua família era então vista como um bando de malfeitores que importava denunciar. E fazia-o tão alto quanto podia.  
Quando contrariada, reclamava veementemente. Fingia acatar a explicação de que não tinha acontecido nada e estavam bem, mas à primeira oportunidade que tivesse, saía sorrateiramente, sem avisar.  Era incrível, dada a diminuição das suas faculdades cerebrais,  o  grau de premeditação destas fugas.
Para evitar alguns conflitos, por vezes, ia sendo vigiada à distância por Cristina. Quando disso de apercebia, reclamava:
-Não preciso de guarda-costas! Sei muito bem o caminho! Julgam de sou tolinha e me perco?! Não, não sou!
 O comentário e o tom de voz em que foi proferido ecoaram, com rigorosa exatidão, durante anos na sua  mente.
Setembro de 2010, dia da festa religiosa da freguesia. Religiosa e cumpridora dos preceitos impostos pela religião, Dulce  sempre fora à missa. Nesse dia, Cristina prontificara-se a acompanhá-la, Dulce recusou veementemente, agredindo-a verbalmente. Acabou por a acompanhar à procissão religiosa, mesmo sendo confrontada em público com  palavras de rejeição, que provocaram nos circundantes olhares intrigados e insistentemente perscrutadores . Sentiu-se horrivelmente. Queria poder explicar-lhe que corria, de facto, o risco de se perder, que queria protegê-la. Mas como o fazer, perante  alguém a quem devia respeito e que rejeitava a sua presença, argumentando estar em seu pleno juízo? Proteger Dulce  de si mesma era prioritário, por isso, ignorou os seus  comentários, apesar de desgastada emocionalmente.   
Gradualmente, a desordem ou até o caos passou  a evidenciar-se, exigindo constantes  reajustamentos. Deixou de conseguir fazer uma refeição completa (cozinhar implica uma série de etapas de previsão e sequencialização), de pôr a funcionar a máquina de lavar roupa, apesar de estar assinalado de forma bastante visível o botão  de ligar,  ou de fazer a limpeza da casa.
A doença foi exigindo à família alterações bastante significativas na sua dinâmica quotidiana, pelo que, desgaste e frustração emocional eram nalguns dias  constantes desde manhã até à noite.  Dias houve em que Cristina desejou que a noite chegasse para ter um pouco de paz de espírito e tempo para si mesma. Lera algures uma frase que lhe ressoava  com frequência na mente: “Sinto-me uma enfermeira a quem não é permitido ter folgas”. Era exatamente isso que sentia. Qualquer atividade tinha de ser cronometrada e planeada ao segundo para que as tarefas domésticas fossem feitas e os cuidados diários se mantivessem. Era impensável fazer algo que surgisse espontaneamente, que não fosse premeditado. Tempos cronometrados para a infinita missão de cuidar de  alguém dependente.  Refugiava-se nesses momentos naquele que era  o seu porto de abrigo de todas as horas.  Sentia-se em segurança, protegida, compreendida, amada.  Sentia que tinha identidade própria e que a sua vida não se fazia apenas de cuidados para com os outros, ainda que tal pensamento pudesse parecer cruel. Entendia bem os momentos de sofrimento e as angústias pelas quais passa o ser humano, permanecia forte apesar das intempéries por que já passara, sorrindo para a vida e para os outros. Sabia que a vida não era uma meta, mas um caminho. Conseguia antecipar-se a alguns acontecimentos, descrevendo com exatidão as dores da alma que a atingiriam. Essa era uma ajuda preciosa, era como se vivesse antecipadamente a realidade que se lhe depararia. Não falava muito, porque não é a quantidade de palavras que indica a sabedoria. De resto, o olhar e os gestos diziam o indizível e ela precisava apenas do seu abraço e de respirar fundo  para se sentir retemperada.

Num dia de outono de 2011, José ao sair de casa não fechou o portão, prevendo demorar-se pouco. Ao voltar e apesar do pouco tempo decorrido, procurou-a no lugar habitual 
-E agora, onde a vou encontrar? Para onde terá ido? – questionava-se. - Deve ter ido procurar a casa dos pais.
A casa onde Dulce vivera toda a infância e juventude até casar ficava ao fundo da rua, pelo que as suas deslocações  a essa casa na tentativa de procurar os pais eram rápidas. Mas não estava lá. Aterrado e sem conseguir pensar, correu toda a vila. Perguntava a quem encontrava se alguém a tinha visto. Rapidamente várias pessoas se voluntariaram para a procurar. Percorreram as ruas, viram os poços e  terrenos nas proximidades da casa que pudessem ter valas onde poderia ter caído… Depois de alguns longos, melhor dizendo  longuíssimos,  minutos de procura, José . foi  procurar  na direção da casa onde  vivera  alguns meses depois do casamento. Encontrou-a finalmente! Conversava ela animadamente com uma amiga que, sabendo do seu problema de saúde, a retivera  um pouco. Nada de mal lhe acontecera, felizmente!
A confusão de papéis familiares tornou-se muito frequente. Dirigia-se a José , seu marido, dizendo ser seu padrinho ou pai. Cristina por sua vez, era apelidada de mãe ou irmã. Pensando bem, ao chamar mãe à sua filha até fazia algum sentido, porque os papéis há muito que se tinham invertido.
As dificuldades  de linguagem aumentaram: as frases começaram a ficar truncadas ou em aberto, dizia por exemplo: “Viste  a …, a…, a…, aquela mulher?”), o que prejudicava muito a capacidade de comunicação e não possibilitava aos outros entenderem o que ela pensava ou precisava.

O ser humano é um ser em constante mudança e adaptação. Perante esta dificuldade,  Cristina passou  a observar os gestos e as expressões enquanto ela falava. Essa comunicação não-verbal dava-lhe pistas do que ela queria comunicar. Se é verdade que a vida  é uma aprendizagem constante, maior verdade adquire esta premissa para os cuidadores de doentes de Alzheimer.  A doença exige uma aprendizagem diária de novas formas de relacionamento, a descoberta de outros meios de comunicação possíveis independentes da fala ou  da razão, como sejam o olhar ou  o toque.

A linguagem  passou também  a ficar comprometida. As dificuldades  de compreensão, de nomeação e de associação decorrentes da falta de memória marcavam cada vez mais frequentemente  o discurso de Dulce, um discurso  desorganizado, vazio, muitas vezes incoerente.

Vítima de Alzheimer, Dulce  experimentou talvez a mais temível de todas as perdas: a perda de si mesma e o esquecimento do seu mundo de afetos, e, em decorrência disso, momentos de  ostracismo, de isolamento, de solidão… Diversas vezes Cristina percebera que algumas pessoas  vizinhas ou que se diziam amigas de Dulce a visitavam ou perguntavam pela sua saúde, no entanto, quando  não recebiam notícias animadoras ou quando dela não recebiam uma reação clara e visível de interesse e agrado, afastavam-se num ápice, sem terem em conta se a sua atuação não estaria a ser cruel, quando  pretendiam ser (ou parecer) misericordiosas.
Desde 2012 a dependência  aumentou, bem como as suas ausências. Até aí tinham acontecido, sim, mas momentaneamente, recuperando  algum tempo depois. Tornaram-se evidentes e arrepiantes os momentos em que apresentava um olhar vazio, um olhar perdido e confuso. Começou também a ter lugar incontinência urinária e fecal. Novo redobrar de vigilância, cuidados e preocupações. Dulce, que sempre fora muito recatada, púdica até,  nunca ousara mostrar um pouco mais do decote ou qualquer transparência na saia, neste momento permite que a dispam e a lavem. Sem usar as palavras reconhece que precisa dessa ajuda.
            A mobilidade diminuiu, obrigando-a a ficar longos períodos no sofá. Não reconhece a sua própria casa, negando-a até.  Verificou-se alteração dos padrões do sono, sendo frequente   ter alucinações em que via muita gente na casa e refugiava-se em qualquer lugar, às escuras, até que alguém a encontrasse. José encontrou-a algumas vezes a meio da noite sentada nalgum  lugar da casa, com frio, e sem saber como voltar para a cama. Encontrou-a também diversas vezes a vestir-se a meio da noite e a preparar-se para sair de casa. As chaves de casa já tinham sido há algum tempo  retiradas das fechaduras e guardadas num local de difícil acesso. A vida deixou de seguir o fluir natural oferecendo apenas em todos os momentos  um terreno árido.

Registou-se um declínio neurológico mais rápido, sendo frequentes  gestos obsessivo-compulsivos como o de  esfregar as mãos uma na outra ou o de  puxar  a ponta de um qualquer pano ou toalha que estivesse perto e  rasgar até o desfazer em tiras.  Não sabia porque o fazia. Ficava até com um olhar interrogativo por não entender a razão da pergunta “Porque fizeste isso?”.
Cristina tinha saudades do seu sorriso, do seu sentido de humor, do seu altruísmo e da sua prontidão para ajudar quem pudesse. Mas sentia saudades, sobretudo, da sua voz!
A demência é sempre profundamente trágica, quer para os doentes, quer para a família e amigos mais próximos. Existe, porém uma enorme diferença entre uma tragédia na qual as pessoas estão ativamente envolvidas e a submissão cega e sem esperança às leis do destino.

Com a exigência crescente dos cuidados a ter, é difícil à família  não perder a noção de que o seu papel não é o de  um profissional, mas sim o de  filha, marido, sobrinhos, amigos... É importante não se deixar absolver na totalidade. Há que reaprender a ser, reaprender a adormecer e acordar. Há dias em que se quer dormir para que o tempo passe. Há dias em que se quer ficar acordado com medo dos maus sonhos. Por vezes, o passado recente  torna-se  longinquamente distante, como se fizesse parte de outra vida, tal a rapidez das mudanças provocadas pela degradação neurológica. O que se fazia até há dois ou três dias, agora já não é possível, é preciso mais, mais, sempre mais.

Percebia-se a olho nu a sua ausência, a ausência de si mesmo como se de um ácido corrosivo se tratasse.  A perda gradual da memória é também o apagar da própria identidade.

Na primavera de 2012 começou a ser necessário tornar as rotinas mais funcionais, nomeadamente as relacionadas com o  banho   e a  higiene diária. José pensou então partir um lagar de vinho e  aproveitar esse espaço para uma casa de banho adaptada (com poliban , apoios laterais nas paredes, maior espaço onde fosse possível circular em cadeira de rodas, se necessário, etc.).
O lagar já não tinha utilidade. Tempos houve  em que  se produzia vinho (entre muitas outras coisas: batatas, couve , feijão…) em grande quantidade, chegando-se até a contratar pessoas para a vindima, pagando-se-lhes   o dia de trabalho. Havia também o espírito de ajuda e economia trocando mão-de-obra por mão-de-obra. Cristina lembrava-se das vindimas como uma festa, com cantigas, anedotas e o sumo das uvas a escorrer das mãos e a manchar a roupa. José, como sempre gostara de fazer tudo o que pudesse pela sua própria mão, pôs mãos à obra. Tarefa imensa, trabalho  hercúleo, moroso e  quase infindável, paulatinamente realizado.
Dulce não chegaria a usar a casa de banho, tal a rapidez dos acontecimentos que se seguiram.  

Vertigem
As férias de verão de 2012 de Cristina  não tiveram o mar como fundo nem os tons da serra como cenário constante, foram antes um verdadeiro corrupio. Dividiu sempre o tempo entre a companhia de amigos que tradicionalmente a visitavam  no verão, em sua casa,  e a casa dos pais onde tinha de cuidar da higiene da mãe, das refeições, da  roupa… A pouco e pouco foi percebendo maior rigidez muscular, maior apatia, menos interação da mãe com tudo o que a rodeava. E assim continuou inexoravelmente.

Setembro aproximava-se a passos largos quando pediu apoio domiciliário. Urgia tomar medidas para que pudesse iniciar mais um ano letivo. O centro social que escolheu foi inexcedível: atento, esclarecedor e diligente.  As funcionárias eram, além de muito profissionais, afetivas e cuidadosas, requisitos fundamentais.
Os últimos dias de agosto e os primeiros de setembro foram vertiginosos!  Dulce deixou de conseguir comer sozinha e até de mastigar, deixou de conseguir andar, embora apoiada por duas pessoas…
Foi feita a inscrição na lista de espera do lar. Nessa mesma  semana surgiu uma vaga. Nem sabia o que dizer! Dulce nunca fizera  sequer um internamento hospitalar e, de um momento para o outro teria de lhe fazer a mala para sair da casa onde vivera quase toda a vida, e onde não sabe se tornaria.  Passou a tarde toda arranjando pretextos para  adiar essa tarefa.
No dia seguinte, a manhã foi agitadíssima. Dulce, deitada na cama, recebeu a visita da enfermeira, do médico e  de pessoas amigas e alguns familiares. Os amigos opinavam, uns a favor do ingresso no lar, outros não. Resolutamente, Cristina e o pai mantiveram  a decisão tomada e a confiança na instituição que a iria acolher.

Vieram visitá-la todos os elementos da família, como se de uma despedida se tratasse, e era-o efetivamente. À tarde, uma tarde de sol, Dulce entrou na cadeira de rodas na carrinha que a levaria. Cristina acompanhou-a com  Laura, a prima presente em todos os momentos,  e chorou todo o caminho.  

Nos dias que se seguiram, os lugares vazios, as roupas  que permaneciam penduradas ou a  escova na casa de banho desafiavam a lucidez.  A mesa com um lugar a menos, tenebrosamente diminuta, o silêncio, a falta da agitação dos últimos dias, das inúmeras tarefas, do tempo cronometrado… Imperava um sentimento de vazio,  no coração sobretudo. Valia a certeza de que Dulce era bem cuidada.

Todas as dores vividas e até as imaginadas são degraus no nosso crescimento pessoal, no fortalecimento da nossa robustez. E cada nova dificuldade permite olhar do cimo desse degrau e sentir, como o fazem os anciãos com impressionante serenidade, que essa dificuldade passará e dará lugar a uma outra.

A presença 

As primeiras manifestações da doença de Alzheimer são sempre desafiantes, insidiosas. Inicialmente pequenos lapsos de memória, passando por vezes despercebidos, evoluíram até  Dulce esquecer o endereço de casa ou estranhar as fisionomias daqueles com quem sempre viveu.

Preservar a vida é o mais arraigado dos instintos, todavia, será sensato mantê-la a qualquer custo? A perda irreversível da memória configura uma dessas situações. Incapazes de lembrar quem somos e de entender o que se passa a nossa volta, de que vale a condição humana? Estas questões, de violência atroz, povoam a mente. 

 A doença de Alzheimer provoca-nos, desafia-nos a, numa primeira instância, a entender; depois, a viver com ela, conduzindo-nos a descobertas várias, dos outros e de nós mesmos.

O céu pinta-se de um tom cinzento um pouco mais escuro do que o habitual. As folhas das árvores que rodeiam a casa libertam-se dos ramos e viajam pelo ar numa dança sem destino. Sabe bem estar em casa, no conforto. Lá fora, o contraste de um ambiente agreste. Enquanto o vento assobia lá fora, Cristina lembra imagens de sua mãe no lar, da sua pele envelhecida e enrugada, primeiramente na sala de convívio, depois no quarto, já acamada, muitas vezes ausente de si mesma. Recorda,  em câmara lenta, a passagem da vida que Dulce tinha até ao estado vegetativo em que se encontra, sem poder fazer nada.

E percebe que há elos que se mantêm e que  se ela não lhe dá um abraço é porque os seus braços não lhe obedecem. E que se não expressa reconhecimento pela dedicação e pelo amor é porque a ponte se partiu e ela se perdeu no caminho.  http://folhasasolta.blogspot.com.br/

quinta-feira, 3 de abril de 2014

ALZHEIMER! É PRECISO! É URGENTE"




Mãe quando descobri o Alzheimer em ti o mundo pareceu-me obra de ficção.
Dia após dia o teu universo, todo próprio, perdido e confuso, agressivo e ansioso,lacrimoso e diferente , faz-me alcançar um entendimento, não apenas de imagem, mas de um longo tempo aprendiz.
De duas vidas as quais caminhamos juntas. De duas vidas as quais pouco sabem. De duas vidas as quais integram-se à outras tantas.
Quisera eu entendê-la “totalmente” no agora! Saber de tudo desta tua real força e, como paradoxo a total dependência e fragilidade!
Tu já não consegue palavras, e elas não mais ativas, ocorrem no teu olhar. Tu já não se equilibra sozinha, nos poucos passos. Tu já não te alimentas sem auxilio.
Tu já não se vestes, nem escolhe roupas. Apenas, sei das cores que teus olhos acompanham com mais atenção.
Do teu sorriso que o Alzheimer apagou! A face não consegue esboçar esta dádiva, porem , acompanhas o meu com atenção e de um jeito todo teu... sorri para mim. Isto é um alivio!, um entendimento, ainda que precário!
Dos alimentos que te agradam no paladar! Da TV que tanto gostas! Dos poucos passeios que ainda aguenta! Dos teus dois dedos da mão que teimam em entortar! Do teu corpo arqueado!
Da tua pele tão delicada! Do uso de fraldas! Das hospitalizações! Das bactérias e vírus oportunistas!
Do teu pedido quando ainda pronunciava-se: não me deixe feia! Pinte o meu cabelo! Dos teus pronunciamentos de desculpas depois que gritava comigo por “conta da doença”!
Dos momentos de ternura e amparo! Das madrugadas sem dormir! Tu já não te asseias sem ajuda!
Do verão que tu se sentes melhor! O que será neste inverno? Procuro não pensar!
Aprendi contigo, comigo e na troca ativa com outras cuidadoras, que a paciência, a aceitação e o viver a cada momento, a informação, o carinho, a prontidão e a fé são essenciais!
Quem diria... eu não imaginava algo tão incapacitante! Eu sequer imaginava sentir-me tão impotente!
Eu não imaginava te amar como uma mãe ama o seu filho ou filha! Invertemos os papéis? Sim!
Mãe meu coração captou tantos valores contigo, estes intransferíveis! Uma luz conosco que justifica todos esses anos! E na verdade, qual de nós duas precisam de justificativas?!
Uma depuração que inflamada de amor, nos faz prosseguir até onde o Criador determinar! Te amo! Sei que me amas! Que o universo te ampare em boas energias... Mãe!
A mídia no geral, que seriam fontes viáveis, pouco sabem e pouco informam! Tv, revistas, rádios e jornais, precisamos de voces! É necessário mais!
Poucas campanhas e não ouvem os “cuidadores familiares”. Estes sim, os mais entendidos para relatos e procedimentos até pitorescos, inéditos!
Os especialistas tentam minimizar! Muitos profissionais da área de saúde despreparados para atendimentos aos portadores de uma Doença Degenerativa!
Os cientistas buscam paliativos! Longo para alguns … curto para outros! São tantos na mesma lida!
Os nossos amores com tal Demência pedem “dignidade” e nós também! “Conheço pessoas e profissionais voltados para o tema que se doam sem exigências financeiras ou cobranças outras”.
Na internet comunidades agrupam “gentes” responsáveis por outras “gentes” portadoras de DA . A elas o meu aplauso! Tenho certeza … a gratidão de muitos!
Divulguem. É de utilidade publica. Um tema seríssimo! Alzheimer não é só esquecimento! O Alzheimer não é contagioso!
É uma doença que exige muito dos familiares e avança progressivamente nos portadores. Debilita a mente e o corpo. Na ultima fase chegam a posição fetal! Muitos nem chegam!
Alguém próximo de ti! Atenção aos primeiros sinais. Sejam solidários! É a suplica de milhares!
O mundo inteiro preocupado com o real crescimento da Doença de Alzheimer! Vamos compreender melhor a doença e fazer a devida PREVENÇÃO antes que seja você o PROXIMO.
MANIFESTO GLOBAL PELA DOENÇA DE ALZHEIMER.
(Autora: Marília Becher Bahr)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

NÃO SE APEQUENE!


Não se acomode na arquibancada da vida
ou como um lenço solto refém da ventania
como um barco sem leme ao sabor da tormenta
como um nômade seguindo uma horda estrangeira 
ou um segurado por grilhões, no imobilismo do medo
no conforto irreal de um refugiado de si, um sedentário

Encare-se, reaja, tome-se e desça para o picadeiro
rabisque, rascunhe, projete, viva seu itinerário
mesmo que seja para reescrevê-lo, reeditá-lo
segundo as exigências sempre mutantes da realidade -
mais sagaz que supunham todos os visionários
mas, mordaz para quem só toma de um escapulário

Não tema a magnitude da montanha gelada
nem os mistérios oceânicos ou os vastos desertos
sua essência é indômita, forjada para o frio e o fogo
nela dormita um gigante hercúleo, um bravo guerreiro
um aguerrido tirano dos muros, um desbravador de mundos
é bastante sacar da coragem guardada no seu relicário

Seja referência, reverencie-se... Não se apequene!
Faça-se, refaça-se e faça, agora mesmo!
Simone Moura e Mendes

ALZHEIMER E O IMPACTO NA VIDA DO CUIDADOR

O desenvolvimento de distúrbios de comportamento é um dos problemas que emergem durante a evolução da doença. Assim, a vida do cuidador passa a ser influenciada tanto pelos aspectos cognitivos como comportamentais da demência.

Existem ainda os aspectos objetivos e subjetivos que provocam interferência. O primeiro refere-se às dificuldades sociais advindas do ato de cuidar do paciente, quais sejam, rotina do lar, relações familiares, relações sociais, lazer, finanças; o segundo diz respeito ao stress físico e mental sofrido pelo cuidador e demais familiares. Sent imentos de raiva, fadiga, falta de esperança, solidão, são comuns.

O desenvolvimento de quadros depressivos e ansiosos bem como a deterioração das condições físicas estão em relação direta com a presença dos transtornos psiquiátricos apresentados pelos pacientes. A insatisfação do cuidador com a assistência recebida de parentes ou amigos, as muitas horas de cuidado diário devido a dificuldade do paciente em realizar tarefas rotineiras, resultam numa situação sentida como um fardo pelo cuidador.

Em contrapartida, apesar da sobrecarga, muitos cuidadores se sentem gratificados com os aspectos do cuidar. Pode-se inferir que uma das razões que determinam essa disposição seja a firme convicção de que há doenças incuráveis, mas não há “doentes intratáveis”.

É o pleno exercício da compaixão, o sair de seu mundo particular para ir ao encontro do Outro, com ele sofrendo, alegrando-se, responsabilizando-se, numa vivência de “fraternura” (Boff, 1999, p. 86).

Outro motivo seria o sentimento de solidariedade, característica humana que leva a atitudes de altruísmo, exaltada pela cultura cristã, independente de racionalizações que muitas vezes levam à indiferença e à paralisação frente a situações que urgem providências.

Pode-se, ainda, aventar a hipótese de que o cuidado amoroso para com seu semelhante ajuda a superar a tristeza provocada pela constatação de seu declínio gradativo, bem como ao aprendizado de vê-lo como é hoje e não como era no passado.

Essa capacidade de atualização do sentimento é inerente ao ser humano e conforme nos ensina Boff (1999) “quando vivenciamos o fascínio do amor... fazemos da pessoa amada uma divindade, transformamos a dureza do trabalho numa prazerosa ocupação”.

Nem todas as pessoas são talhadas para serem cuidadoras e aqueles que se vêem compelidos a assumir tal missão muitas vezes estão à procura de si no espelho do Outro, para além dos valores interiorizados, ou mesmo, encontram nessa atitude uma maneira de ganhar atenção e consideração por parte de pessoas que por eles são supervalorizadas (Romero, 1994) . 
http://repositorio.uniceub.br/

DESTINO, A VELHICE

Será a velhice um "detalhe" biológico inevitável a todo ser vivo? Uma metáfora que indica o final do túnel? Iluminado apenas por uma luz tênue, ao contrário de uma fulgurante, intensa, semelhante aos flashes pirotécnicos dos fogos de artifícios na passagem de Ano Novo? Um indicativo de uma trajetória coroada pelos feitos de um dever cumprido? Até mesmo sendo uma simples lembrança de um quadro na parede desgastado pelo tempo? Ou seria uma carta há muito guardada na gaveta do esquecimento?
 
A ideia não é restringir o tema em questão, observando somente o sentido da ocasião. Ao contrário, é tornar evidente e real, uma recordação feliz muitas vezes compartilhada por momentos de angústia, outras nem tanto. O que se pretende de fato é ampliar os canais de entendimentos entre as várias fases e vertentes da longevidade humana. Fecundando essencialmente à vida e seus benefícios. Através desse assunto, você tomará o trem do meio-dia, numa viagem de reflexão no tempo: Destino, a velhice.

A velhice não é mais que um estágio definitivo (?) da vida terrena que chega a todos. Para alguns, a velhice é ceifada com antecedência pelos mais negligentes, ou por males inoportunos, independente do que é mais sagrado na existência humana. Não prestigia status. A velhice é taxativa e impiedosa. Faz parte da evolução da civilização e suas transformações, como o sol é para o esplendor do nascimento de um novo dia; para a lua e as estrelas que encantam e iluminam as noites servindo como fonte de inspiração aos poetas, ao lirismo da sua obra, enfim concretizada.

Da mesma forma que é o apogeu de uma conquista que todos nós pretendemos atingir, mesmo trazendo no cerne, circunstâncias desagradáveis. Tendo como causas doenças inerentes e insólitas dessa fase, como debilitações orgânicas provocadas pelo cansaço e morte das células do nosso corpo. Por que elas morrem? Mais uma vez o tempo se encarrega deste estágio. Estão impregnadas de seres microscópicos nocivos e atípicos, adquiridos naturalmente durante o período existencial.

O entendimento sobre a velhice mudou muito nos últimos tempos. Hoje a perspectiva de vida chegou aos 75 anos, com expectativa de se atingir com um pouco de sorte os cem. Em compensação a caracterização dos estereótipos, melhor idade ou terceira idade, ficaram tão evidentes quanto o aparecimento dos remédios genéricos, que ostentam a mesma fórmula, porém com um design e preços diferenciados.

Segundo relatório da OMS (Organização Mundial de Saúde, dados IBGE), divulgado em 2005, o Brasil já pode ser considerado um país envelhecido, com mais de 7% de sua população composta de idosos, e que, até 2025, será o sexto no mundo. A Constituição de 1988 coloca no seu texto essa questão, abrindo prioridades mais abrangentes na proteção dos nossos anciãos.


Mas foi a partir da Política Nacional do Idoso, estabelecida em 1994 (Lei 8.842), que foram criadas normas para os direitos sociais, garantindo autonomia, integração e participação nas bases conjunturais de cidadania. Que determina espaços ou filas exclusivas nos estabelecimentos bancários, órgãos públicos, ônibus, metrô e em diferentes lugares frequentados pelos velhinhos.

Algumas pessoas ainda não tomaram consciência de que esse é o seu futuro inadiável e irreversível. Um exemplo claro e comum é o comportamento de algumas pessoas, principalmente os mais jovens, ou mesmo, de adultos com aparência saudável, resguardada por uma alimentação baseada em diferentes tendências dietéticas (moda na sociedade). Seria esta a fórmula perfeita para a longevidade? Ou apenas mais uma enganação capaz de iludir até os mais sensatos, que num dia, não muito distante, serão os protagonistas desse contexto?

É preciso dar um basta. Parar com o preconceito e rotular os idosos como inúteis, ociosos, vencidos pelo prazo de validade. Disponíveis apenas para gastar seu tempo útil com o lazer: jogos de damas, dominó, xadrez, bingo, cartas e outras atividades reconhecidas apenas dos aposentados, ou portadores de alguma deficiência especial.

Concorrem nesta mesma questão, aqueles que ficam sentados em bancos de praças, admirando os pássaros; curtindo o dia que parte abrindo as portas para um novo alvorecer; ou debruçados no peitoril das janelas, tão antigas quanto eles, mirando o pôr do sol no horizonte com toda sua majestosa beleza. Uns poucos procuram a felicidade aderindo-se a exemplos calcados nos modelos de liberdade, participando de festas e espaços reservados para a dança de salão.


São merecedores sim, de considerações dignas e relevantes. Quantos suportaram ou carregaram nos ombros um fardo superior às suas condições, numa época onde o serviço era quase que totalmente manual e braçal? Não se conhecia horários preestabalecidos, as tarefas se faziam necessárias, portanto, assim eram feitas, independente das condições meteorológicas, de horário e disposição física.

Para os países orientais a velhice é objeto de adoração e respeito. No Egito por volta do século 3 mil a.C. há registros da obrigação dos filhos cuidarem dos seus idosos; em Israel o Sinédrio era composto por 70 anciãos do povo; os índios cultuam os mais velhos, como exemplo de sabedoria e mensageiros vivos de suas tradições. E no mundo animal essa prática também e respeitada, obedecendo a princípios herdados do processo evolutivo, até na instauração do domínio de seu habitat.

Somente na sociedade atual, o descaso com a comunidade idosa, está relegado ao abandono, jogadas e entregues à toda sorte, nos asilos, albergues e invisíveis pelos olhos de grande parte dos que habitam o nosso planeta. Chegam a provocar em alguns o desconforto de suas aproximações, temerosos de ter que servi-los a contragosto. Ceder uma poltrona no ônibus, acompanhá-lo na travessia de uma rua, ajudá-lo a subir uma escadaria, uma calçada, e outras tantas situações nas quais se encontram desfavoráveis.

Na comunidade dos elefantes a liderança é conduzida pela elefanta mais velha - a matriarca. O comportamento da espécie quando a velhice severa chega e, se faz sentir como resultado do declínio físico próprio da idade, eles se unem protegendo um ao outro. Como meio de antecipar os efeitos da morte, esses grandes animais, abandonam a manada e se refugia no seu último suspiro de vida, próximo do seu cemitério e última morada terrena. Evitando quem sabe, que os mais jovens presenciem aquele momento de desilusão e tristeza.

Na sociedade humana, o desfecho da vida, obedece a critérios baseados nas condições físicas do portador. Àqueles que concluem sua existência de maneira saudável, são privilegiados pela ausência da dor, do sofrimento. Enquanto que, outros terminam os seus dias num leito de hospital ou residência, sofrendo e fazendo sofrer familiares e amigos. Deixando claro que a manifestação do carma do sofrimento é vital e insubstituível.

Quando a condição socioeconômica fica a desejar, o peso da cruz é insuportável. Falta assistência nos mais diferentes níveis. Em determinada circunstância, alguém da família é convocado a tomar decisões mais drásticas, tornando-se obrigado a se afastar provisória ou definitivamente de sua obrigação trabalhista e profissional para ficar à disposição do seu idoso, numa atitude voluntária, com a finalidade de resgatar o bem estar do dependente. Enquanto os mais abastados, além dos inúmeros benefícios que o dinheiro proporciona, ainda recebem como bônus a proteção de excelentes planos de saúde com atendimento especializado em domicílio.

E os portadores do mal de Parkinson, Alzheimer, chagas, desnutrição crônica, câncer e outras tantas doenças consideradas incuráveis? Só mesmo o amparo de Deus para trazer o conforto espiritual desejado, através da fé e da expectativa do Paraíso segundo a crença de cada um. Mário Quintana, num de seus versos relativo ao assunto define: "Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta".

Considerando a fator educação, a velhice sem o estudo, é inegável que se sujeita a um futuro penoso, que pode ser uma consequência adquirida lá na juventude, focada mais precisamente no trabalho árduo, do que na formação educacional tanto dos filhos, quanto da sua própria. Enquanto o outro lado da moeda - quem estudou e se preparou - deixa um legado consistente, visivelmente manifestado nas suas ações cultivadas perante a sociedade e aplaudida pela maioria.


O que é Gerontologia? Segundo o Dicionário Aurélio, esta palavra estranha, é a ciência que estuda os problemas do velho sob os aspectos: biológico, clínico, histórico, econômico e social. É inteligente já ir familiarizando-se com o significado dessa ciência. Ela será o ombro amigo amanhã. O nosso próprio destino, numa estação do tempo chamada velhice.

"Afinal, o que é a vida senão longo ato de sairmos de um berço, evoluindo na caminhada por diferentes estradas, vivenciando inusitadas situações e depois, com passos arrastados, tomar o caminho inexorável do eterno?"
http://bussolaliteraria.blogspot.com.br

terça-feira, 1 de abril de 2014

O BEM NO MAL DE ALZHEIMER - ZULMIRA ELISA VONO

O bem no mal de Alzheimer

Sinopse

Desde 1970, o Brasil observa um acelerado aumento do número de pessoas idosas na sua população. Segundo projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS), até o ano 2025 essa faixa etária crescerá quinze vezes, enquanto a população total crescerá apenas cinco vezes. A proposta desse livro é apresentar as sutis manifestações iniciais do mal de Alzheimer, as estratégias de relacionamento com a pessoa acometida, o conhecimento e o entendimento de sua patologia, seus sinais e sintomas visando transformar o convívio com a doença. O conhecimento facilita o entendimento da doença e fortalece as ações.