quarta-feira, 25 de junho de 2014

TEMPO PERDIDO - LEGIÃO URBANA




Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo.

Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".

Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem,
Selvagem;
Selvagem.

Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus
Olhos: castanhos.
Então me abraça forte e,
Me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo.

Não tenho medo do escuro,
Mas deixe as luzes acesas agora,
O que foi escondido é o que se escondeu,
E o que foi prometido,
Ninguém prometeu.

Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens,
Tão jovens,
Tão jovens.

VIVENCIANDO AS PERDAS

Com o Alzheimer, conheci a impotência do ser humano diante de uma doença incurável. Surgem os momentos de revolta diante da progressão da degeneração física e mental, apesar dos cuidados e da assistência.

Minha mãe completará 80 anos em maio e o Alzheimer foi diagnosticado há quatro anos. De repente, os papéis se inverteram: perdi a posição de filha e assumi a de mãe. Perdi o abraço forte, o afago terno e carinhoso. Perdi os meus parâmetros, os meus caminhos, o ombro amigo, o meu modelo.

O afastamento da imagem que idealizei da minha mãe quando ficasse velhinha é cada vez maior. Vieram as mudanças de comportamento em forma de agitação, de agressividade, da perda da fala, das boas maneiras, do controle motor. Ela passou a depender totalmente de mim, até mesmo nas tarefas mais simples. Embora tenha perdido a identidade, eu não posso permitir que ela perca a dignidade.

Com dificuldade, precisamos trabalhar as emoções: dor, tristeza, angústia, insegurança, medo. As perdas vão se acumulando. A cada momento, estabeleço um novo vínculo com ela e o perco em seguida. Amanhã, terá mudado, hoje não sabe o que sabia ontem. É como se ela se tornasse, a cada dia, uma nova pessoa ao mesmo tempo em que a outra morre.

Ela não deixou de existir. Se despersonalizou. Esqueceu sua história, perdi minha mãe, mas ela não morreu. Perdi o papel de filha. Ela é minha mãe, mas eu não sou sua filha. Ela está para mim, mas eu não estou para ela. Vivencio um luto diário.

Além de perder a relação com minha mãe, perdi alguns amigos, o apoio de alguns parentes tão queridos, a qualidade de vida, a oportunidade de “curtir” a expectativa da chegada do primeiro neto. Acima de tudo, a fé é de grande ajuda. Sei que Deus não permite um fardo maior do que eu possa suportar. Como disse Madre Teresa de Calcutá, “apenas gostaria que ele não tivesse confiado tanto em mim”.

Graças a Deus, existe a ABRAz que nos dá informação sobre a Doença de Alzheimer e como cuidar. Os Grupos de Apoio e, particularmente, o do Serviço de Psicologia e Higiene Mental do Hospital São Cristóvão, onde encontrei as psicólogas Clara e Maristela que, com seu profundo senso de amor ao próximo, juntamente com os amigos familiares, nos ajudam a elaborar a aceitação da doença.

Lá aprendi a descobrir novos caminhos na vida, a não me isolar, a estruturar a vida e reestruturar a escala de valores e a repartir nossas dores e angústias. Pude entender que não podemos viver só para o doente, que não podemos deixar de viver a nossa vida, de abrir espaço para novos interesses. Aprendi que a maior arma contra a doença são o carinho e o amor e encontrar o equilíbrio emocional para esse cuidado.

Embora sofra com a perspectiva, aprendi a ver a morte como um fato natural da vida. Ganhei muito amigos sinceros e o maior aliado, meu marido. A ele, minha eterna gratidão pela paciência, pelo carinho e amor que devota à minha mãe, me auxiliando a cuidar dela em todos os momentos sem esmorecer e sempre me encorajando.

Com minha mãe, aprendemos a usufruir de momentos indescritíveis. Temos a recompensa da alegria do brilho de seus olhos. Ela não nos reconhece, mas nós ainda nos comunicamos. Acariciamos sua face, beijamos seu rosto e ela beija nossa mão, mesmo não lembrando que sou sua filha e nem de seu genro. Não entendemos mais sua fala, mas seu sorriso é a linguagem que conforta nossa alma.
Yone de Moura Beraldo- Coordenadora GA Penha da ABRAz-SP
http://abraz.org.br/v

ALZHEIMER - ALERTA

terça-feira, 24 de junho de 2014

REALIDADE (08)


Sinto a cada dia que estou perdendo a minha amada mãe para o Alzheimer. Dificuldades de comunicação, passos lentos com pouco equilíbrio, dificultados pela rigidez dos músculos, o silencio mais frequente, dentre outras transformações observadas no dia a dia.

Perceber que a memória está esvaziando, que está perdendo as recordações mais importantes e a capacidade de interagir. Perder o contato com o mundo e com os entes queridos enquanto o corpo permanece vivo é uma dor sem tamanho. É uma assustadora perspectiva para os portadores do mal de Alzheimer. Uma vida sem passado e sem presente.

"Percebo com clareza que o portador do Alzheimer é um guerreiro solitário travando uma luta constante e inglória contra o vazio do esquecimento… No mundo das palavras, seu campo de ação torna-se cada vez mais estreito e limitado para que possa dar vazão ao império dos sentidos. Já no universo do sentir a vida pulsa estrondosa e vibrante, sem subterfúgios nem fronteiras!"

A DA nos causa medo porque atinge nosso fundamento e nosso indivíduo: nosso espirito, nosso discernimento, nossa identidade. A doença se nutre de tudo, engolindo com ela as lembranças de uma vida. Tudo se torna diáfano : um esquecimento de si, uma dissolução existencial!.

Os traços da doença de minha amada mãe, estão profundamente marcados no seu rosto. Nota-se o cansaço e a inocência de cada expressão, de cada palavra... Muitas vezes parece uma criança mais velha, se perde na composição das frases, e a capacidade de pensamento é mínima. Sinto perder-se no tempo, no espaço, no mundo, na vida.

Não canso de falar: o Alzheimer é uma doença avassaladora e impiedosa, cujo alvo não é somente o sujeito, mas todos aqueles que o cercam, em um raio bastante amplo, alterando completamente a rotina familiar. A doença vai modificando o humor, o comportamento e o tipo de relação do enfermo com seu entorno social e seus familiares.

Quando digo alteração na rotina familiar é no sentido de colaboração e apoio de toda a família neste processo tão sofrido que a DA produz. É no sentido de compartilhar com a família a dor e criar juntos, possibilidades de outras pessoas participarem, oferecendo o apoio e a troca entre os membros envolvidos.

O apoio neste momento é imprescindível, pois ajudará as famílias a encontrar novas formas de enfrentamento, ao mesmo tempo em que, cria-se um espaço para expressão da dor. A experiência de compartilhar o medo e a insegurança, possibilita que os cuidadores e familiares possam aproveitar melhor o tempo que ainda tem com seu ente querido. O amor e o carinho são fundamentais neste momento de resgate e despedida”.

Infelizmente, a minha realidade é totalmente contrária ao que se espera. Intrigas entre irmãos, total falta de compartilhar de dores e sentimentos. Falta de colaboração nas divisões de atividades que produzam uma melhor qualidade de vida para a minha amada mãe. Falta de confiança e muitos outros sentimentos negativos. E acima de tudo, o que acho mais sofrido, ausência de total manifestação de carinho com a minha amada mãe, beijos, abraços, o “eu te amo”, nada... , tratando-se do comportamento da filha mais velha que mora com ela. É uma pessoa fria, cristalizada em seus sentimentos.

Sinto muitas vezes sem forças, com cansaço físico e acima de tudo emocional. Muitas noites sozinha a chorar, a pedir a DEUS forças para continuar com a minha missão junto com a minha amada mãe. Quanto sofrimento, quanta dor. Sei que tenho uma “reserva de amor” muito grande, isto é que me impulsiona a seguir em frente.

Procuro a cada dia superar as dificuldades, acredito que tenho um poder de resiliência, até então desconhecido. Tenho uma “energia armazenada”, onde através de extrema dor e sofrimento, consigo lançar mão de uma energia latente para superar cada dia as dificuldades e tentar se preparar para os desafios que ainda virão.

Minha amada mãe, continua sendo assistida por vários profissionais de saúde. Sempre participando das datas comemorativas da família, passeios nos shopping e outros tipos de lazer quando por ela demandado. Conto com a minha irmã mais nova para compartilhar estas atividades. O importante é não isolar, uma vez que ela sempre foi comunicativa, gostava muito de viajar  e participava inclusive de grupos da Terceira Idade.

Apesar de todo o sofrimento e dor ao observar a evolução da DA, é importante enfrentar as tarefas menos estressante quando se busca como grande aliado o AMOR. Assim, quando o repertório das palavras se evapora, voltamos a descobrir a forma única com a qual todo o universo se comunica: as linguagens do corpo, da alma, do coração!

O verdadeiro amor não se resume ao físico, nem ao romântico, nem ao bonito e muito menos ao que possuímos. O verdadeiro amor é a aceitação de tudo que o outro é… suas qualidades e defeitos, o inteiro que se torna metade de nós. O verdadeiro amor não se vale de um momento de fraqueza ou de vangloria, mais sim de tudo que foi um dia… do que será amanhã… e também daquilo que já não é mais.. daquilo que deixou saudade, e faz a gente ter certeza de que amor existe, mesmo quando já não existe mais..!! 

“Quando falo Amor, não é somente Amor de filha e sim um puro Amor Consciente por um Ser Humano que você terá que dar banho, limpar e lavar o bumbum; dar alimentação e remédios em horário certo; ser firme na hora de dizer NÃO, quando na verdade está doida para ceder e dizer SIM; dar uns gritos e ter aquela vontade de extravasar a sua raiva dando umas boas palmadas e ter a consciência que não pode e não deve fazer isso. Enfim, um Amor incondicional, independente de ser filha/mãe, por um Ser Humano C O M P L E T A M E N T E dependente de você. E você se emociona com esse Amor porque se vê, apesar das cobranças de terceiros, com o seu espírito amadurecido, a entender o porquê da sua existência. E chega a conclusão que apesar de tudo, o Mal de Alzheimer é na verdade um veículo para fazer você enxergar o poder desse Amor”.

As emoções do doente de Alzheimer são um terreno ainda bastante inexplorado. As pesquisas se preocupam muito com a cognição, mas não com a emoção. É possível que para o doente de Alzheimer alguns sentimentos, principalmente o carinho, sejam os únicos vínculos que os mantêm ligados à realidade que os circunda. O amor estimula a memória. Com uma vida afetiva ativa, a doença progride mais lentamente. 
E com certeza, é com este amor e carinho  que continuarei minha missão junto a minha amada mãe. TE AMO

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O VALOR DO SILÊNCIO


O silêncio ajuda a nossa procura de nós mesmos e orienta cada passo da nossa vida. Atualmente, o silêncio acaba por ser um bem extremamente precioso e pouco utilizado. As pessoas perderam a noção da relevância que tem silenciar.

Andamos atarefados na nossa vida, num constante “inconstante”, sem parar, sem saber por onde e para onde ir. Quantos questionamentos, quantas perguntas sem respostas que nos fazem sentir sozinhos, desalentados, sem rumo. E acabamos por perder o sentido da nossa vida, o objetivo. Metas que temos, mas que se vão desvanecendo e acabam por ser inalcançáveis e ficamos perdidos, desnorteados.

O silêncio é a nossa chave! É a resposta a muitos questionamentos que carregamos. É a ferramenta para nos encontrarmos connosco e encontrarmos a nossa essência. Mas como? De que forma o silêncio é tão relevante para a nossa vida? O silêncio faz com que tudo o que nos rodeia e inquieta, acalme. 

Por mais preocupados que estejamos, por mais dificuldades que nos abarquem, necessitamos silenciar! E o silêncio não é só calar, não é só ir para um lugar quieto e sem barulho, porque até aí podemos não estar em silêncio. Precisamos de silêncio interior. Até podemos estar rodeados de pessoas, mas conseguimos silenciar o nosso pensamento e organizarmos as nossas ideias, as nossas vontades, os nossos objetivos. O silêncio vem reforçar o que temos cá dentro. Vem orientar-nos para a nossa meta. 

Cada vez mais é necessário silenciar em qualquer situação, parar antes de responder, antes mesmo de dizer algo que vai ferir o outro, antes de dar uma ordem menos certa, ou com um tom autoritário, antes de tomar uma decisão precipitada de que me vou arrepender. Vamos tentar silenciar mais e ouvir o interior de nós mesmos. Quantas decisões poderiam ter sido diferentes se silenciássemos antes.

Iremos perceber mudanças em nós, mesmo que pequenas agora no início, e nos outros, igualmente. Iremos evitar situações menos agradáveis para nós. Em última instância, iremos viver de modo mais completo e pleno! Vamos sentir que não somos ovelhas comandadas pelas outras a seguir o mesmo caminho, “só porque sim”Vamos ter controlo em nós, nas nossas decisões, na nossa vida!
(Marta Faustino)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

VOCÊ NÃO ME ENSINOU A TE ESQUECER - CAETANO VELOSO




Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto 
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto
E nesse desespero em que me vejo

Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar

E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar