quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O ALZHEIMER NOS LAÇOS DO AMOR



Nas últimas semanas, vivemos o apelo emocional para as demonstrações do amor filial. Data marcada, lojas abarrotadas de produtos e de gentes se atropelando para a escolha do melhor presente, propagandas em todas as mídias a oferecer-nos todo tipo de vantagem nas compras, enfim, um corre-corre desenfreado para que não deixemos de homenagear nossas mães. Breve, será a vez do papai, depois Natal, e por aí vai…

Muito legal, isso, porque motiva as reuniões familiares! Nessa labuta diária que nos envolve, não mais sobra tempo para dedicarmo-nos às relações afetivas: da convivência companheira, do bate-papo cotidiano com nossos entes queridos.

Dessa forma, graças ao alardeado dia das mães no domingo passado, em diversos lares brasileiros – de uma forma ou de outra, com ou sem presente – as mamães viveram o dia em que os filhos, de perto ou de longe, buscaram um tempinho para prestar a justa homenagem! Apesar de não mais ‘saber’ o significado de datas como natal, aniversários, etc. minha mãe também viveu as homenagens do dia dela!

Enquanto o dia avançava, surpreendi-me imersa numa série de reflexões sobre os efeitos do Alzheimer na vida diária dos seus portadores e de todos ao seu redor. Logo pela manhã, ao acordarmos, beijei-a muito dizendo que aquele era o dia dela – o dia dedicado às mães! Percebi que se entregava dengosa aos meus beijos, mas quanto às informações que lhe passava sobre aquela data especial, nenhuma reação demonstrava de entendimento ou de importância para ela.

Mais tarde, quando meus irmãos chegaram trazendo-lhe presentes, seu foco de interesse era disperso e buscava mais interagir de alguma forma com eles do que interessar-se pelo presente recebido. Meu irmão, com muito bom humor, observou: “ela gostou mais do papel colorido que envolvia a bolsa que lhe dei!” De fato, mesmo sendo louca por bolsas, o papel que envolveu o presente foi o grande alvo de seu interesse, segurando-o firmemente e exclamando: “que beleza!”, tornando-se vãos nossos apelos para que, ao menos, olhasse para a bolsa.

E foi assim que observando as embalagens dos presentes, lembrando os delicados arranjos de flores, meus pensamentos detiveram-se nos belos laços que os enfeitam ou prendem e, por analogia, me vieram à mente os laços afetivos que nos unem e nos embelezam a alma e o coração.

Eis alguns dos ensinamentos sobre a essência do viver e sobre as relações afetivas que, particularmente, acho que podemos assimilar ao conviver com os portadores do Alzheimer: primeiramente, minha atenção voltou-se para os nossos costumes sociais e a importância que damos ao cumprimento deles e de seus rituais.

Vejamos: em datas comemorativas, impossível não pensar numa reunião conjunta para o almoço ou jantar; igualmente fora de cogitação não se preocupar em comprar algo que agrade àquele que amamos e ofertar-lhe como presente. Tudo isso é muito bom, prazeroso e mais uma das muitas formas que encontramos para expressar o nosso afeto.

Convivendo com mamãe, percebo as perdas de autonomia, de memória, mas percebo também que há uma maior e mais intensa susceptibilidade emocional. Vejo-a mergulhada numa efervescência de múltiplos sentimentos e confusa sob a névoa de lembranças que se embaralham numa complexa mistura espaço temporal. A sensação que tenho é de que ela está a viver no universo genuíno do sentir, apenas SENTIR sem a explicação lógica do que sente.

Todos os dias, para ela, são datas especiais porque tudo parece sempre que está sendo visto pela primeira vez. É então que somos estimulados a adquirir um novo olhar sobre todas as coisas que nos habituamos a acreditar que já sabemos ou que já conhecemos. Curiosamente, isso nos exercita a encontrar novas formas de explicar o já explicado, de ensinar o já aprendido e, conseqüentemente, rever tudo aquilo que já nem mais enxergávamos por nos considerarmos detentores de um saber automaticamente internalizado.

Concluo, então, que no caso específico dos portadores da D.A., a data mais importante é hoje e o presente mais precioso é a presença daqueles que a eles estão ligados pelos laços do amor. São esses laços que embelezam a delicada sensibilidade de seus corações e prendem o foco da atenção em suas confusas mentes.

Em resumo: HOJE é sempre o dia especial a ser comemorado; HOJE é a data que ainda posso marcar no calendário da minha vida; HOJE é o dia em que ainda posso interagir com as pessoas que eu amo, rever atitudes, aprender algo novo, porque hoje é o tempo que – como disse o grande poeta Mário Quintana – “infelizmente… não voltará mais”.

Isso o Alzheimer me ensina: ao envolvê-la nos laços do amor – com paciência, carinho e atenção – torno-me o presente prazeroso que dá leveza e festividade ao dia-a-dia de mamãe. (Gracinha Medeiros)
http://www.cuidardeidosos.com.br/

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