Novas descobertas revolucionam o
jeito de entender o Alzheimer — mal em ascensão, terrível por apagar as
lembranças — e trazem lições preciosas sobre o que está ao nosso alcance para
resguardar o cérebro. Sim, os hábitos podem pesar tanto quanto os genes na
equação que dá origem à doença.
Guardar o passado, decifrar o
presente e esboçar o futuro — é graças a uma função cognitiva denominada
memória que construímos nossa história. Sem essa precursora do raciocínio, o
leitor jamais compreenderia as palavras deste texto, nem eu o escreveria. A
memória é valiosa a cada minuto e conservá-la por anos a fio parece ser um dos
maiores segredos de uma existência saudável. Mas, se o próprio envelhecimento
pode sabotá-la, uma ameaça em especial é capaz de corroê-la, provocando um
apagão que faz o ser humano perder a identidade. É a doença de Alzheimer.
Infelizmente, com o aumento da
expectativa de vida, cresce também o número de suas vítimas. Por isso, os
cientistas queimam neurônios para desvendar seus mistérios e encontrar uma
maneira eficiente de enfrentá-la. Há algum tempo, a culpa era lançada quase que
exclusivamente sobre a herança genética. Mas agora está provado: o estilo de
vida é tão importante quanto o DNA na hora de dar as cartas para o Alzheimer.
É o que revela um trabalho da
Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, que avaliou a incidência do problema
em 1 880 idosos ao longo de 14 anos. “A dieta e a atividade física modificam o
risco da demência”, afirma o líder do estudo, Nikolaos Scarmeas. Os
participantes que se exercitavam e conservavam um menu rico em peixes, azeite e
vegetais apresentaram uma probabilidade 60% menor de sofrer o colapso neuronal.
“Esses hábitos podem reduzir inflamações e a formação de radicais livres,
moléculas danosas às células, além de melhorar a ação da insulina e interferir
no papel de genes no cérebro”, enumera Scarmeas. “São mecanismos que afastariam
o Alzheimer.”
Mas o que dispara a devastação
mental? “Estamos na busca do que provoca a doença. A deposição das placas
amiloides, que antes era uma das únicas explicações para o mal, é mais a sua
consequência do que a sua causa”, diz a neurologista Márcia Chaves, da Academia
Brasileira de Neurologia. Essas placas bloqueiam as conexões entre os
neurônios. Em meio à caçada dos motivos da doença, uma equipe da Universidade
de Southampton, na Inglaterra, lança nova luz sobre a treva que se apodera da
massa cinzenta.
Os pesquisadores notaram, após
rastrear 300 portadores do problema, um elo entre o Alzheimer e a exposição do corpo
a inflamações recorrentes, traduzidas por altos níveis de uma substância no
sangue, o fator de necrose tumoral (TNF). “Acreditamos que, na sua presença, há
um sinal da periferia para o cérebro, que produz agentes inflamatórios nocivos
aos neurônios”, conta o pai da hipótese, Clive Holmes.
Inflamação é uma forma de o
organismo se defender naturalmente. Mas, ao fugir do controle e perpetuar-se, a
liberação contínua de moléculas incendiárias como o TNF não é nada bem-vinda —
inclusive para a cachola. “Problemas marcados por processos inflamatórios
crônicos, caso da obesidade, do diabete, da artrite e da doença cardiovascular,
poderiam contribuir com o Alzheimer”, especula Holmes. Em outro trabalho, o
neurocientista demonstrou que infecções em geral aceleram o declínio cognitivo
em pessoas que já têm a demência. E por que o ataque de um micróbio em qualquer
canto do corpo pode ser tão cruel para a massa cinzenta? Porque invariavelmente
desperta inflamações.
Ninguém sabe ao certo se está aí,
nas inflamações, a origem do mal, mas, no mínimo, o fenômeno amplifica a
falência do cérebro. “Estamos numa fase de juntar as peças do quebra-cabeça”,
analisa o neurologista Paulo Caramelli, da Universidade Federal de Minas
Gerais. O que conforta é o fato de a medicina ter nos ensinado recentemente que
uma dieta balanceada, aliada à atividade física, ajuda a aplacar o incêndio e
preservar as artérias, minimizando o risco de o Alzheimer aparecer. (por DIOGO
SPONCHIATO).
http://saude.abril.com.br/
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